Isabela Nunes
porque sabe — sabe que fez um perigo. um perigo tão antigo quanto o ser humano.
clarice lispector, “uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”
às vezes você sai de casa e não acontece nada. às vezes você sai e cai no chão, perde o trem, se ensopa na chuva, termina um namoro, desce na estação errada, faz um amigo, perde a chave, pisa sem querer numa borboleta, descobre o calor e que nas árvores a seiva corre, e há pessoas morrendo e nascendo, e não acontecer nada quase sempre é só falta de imaginação, quase sempre também é acontecer algo. às vezes você sai de casa e é como se a vida te acenasse, rindo, orgulhosa em mostrar todos os jeitos dela se emaranhar nas teias do acaso e te sacudir, sem precisar de nada além do ato quase insignificante de você decidir sair de casa.
é que nós somos cegos, mas tem um monte de teia se enveludando no agora pra montar a rede do acaso futuro, quando inevitavelmente, como uma aranha prestes a devorar, ela nos arranca a cegueira à força e diz vem aqui, olhe pra tudo que ainda pode ser a partir do que já foi, e é como sermos surpreendidos com a descoberta de um mundo. a única explicação é que a surpresa venha da ignorância, porque os trâmites do acaso e da necessidade são frequentemente os mesmos e os paradoxos meros problemas de linguagem, a rede do destino uma verdade verdadeira demais pra ser recusada se a compreendemos.
é que também somos burros e por isso mesmo o destino tem essa mania de embasbacar. insistimos em procurá-lo numa metafísica das migalhas do futuro e na verdade – como os estóicos bem sabiam – ele é bem esperto em se esconder nas exigências mundanas do passado. eis uma dica para os oráculos: esqueça tirésias e os céus, olhe pra trás ou pro lado. eis uma sabedoria esquecida: não há mistério além do mistério de que acontece o que acontece e há o que há. destinados, estamos todos.
mas chega. não é disso que quero falar. se é que sou eu que quero falar, e não essa coisa movendo-se em mim.
às vezes quando num ato quase insignificante a gente decide sair de casa e a vida toda enteiada nos acena e acontece alguma coisa encubada no passado esquecida no agora semeando o futuro na qual contra todo o seu melhor julgamento você não consegue parar de pensar e lembrar e querer e que vem em meio a um turbilhão de outras coisas que você não entende e que é mais um pontinho ambíguo entre erro crasso e acerto milagroso num período muito conturbado da sua vida, você é levada a pensar sobre o desejo, esse maldito. desejo desejoso de querer, traiçoeiro, vontade pura, esse desgraçado. o acaso puxa uma corda e o perigo é o desejo, esse perverso, comparsa do destino porque também ele nos chama de tolos e em seu decreto incontornável nos rouba de nós. como um demônio que te toma, espremendo a razão, a vergonha e o pudor, pondo fogo na carne, ele te olha sempre perguntando se você quer mais, e em resposta você se move no mundo sempre fazendo que sim. há escolha?, às vezes você indaga, há desejo, o demônio responde.
há no desejo um grito como o de santa teresa: meu deus, morro de não morrer. do lado do desejo a sede por soçobrar, perder pé, morrer sem cessar de viver, as violências das mais belas, as imundícies das mais santas. o tempo para, conspurcado e sagrado, e é uma morte que inflama não se sabe se de dentro pra fora ou se de fora pra dentro, pede rendição, pede que no momento em que nos é pedido escolha também digamos apenas: há desejo.
entre destino e desejo há essas coisas que espantam por serem lembretes de que na maior parte do tempo você anda por aí possuída sabe-se lá por que força, que te compele a sabe-se lá que vontades, indo sabe-se lá pra onde, o gosto pela impostura devolvendo ao corpo essas paixões que ele diz apenas pegar emprestadas mas que são o próprio corpo, a gente o filtro. o espanto é tão grande que mata a ilusão do controle e expulsando o controle dá medo e vira uma palma aberta que se estende: pare. mas o desejo protesta. o desejo fala. o desejo até escreve, essa coisa nas minhas mãos. maldito. o demônio sempre tão alto pedindo que sim, que mais, que sempre. querer queimar arder. aquela música que diz: de vez em quando quero as coisas tão mais do que queria. há eu? há desejo.
há o desejo que apesar do mundo faz até a ruela escura da sé desmanchar seus perigos concretos no perigo subjetivo que é carne em carne, peito em peito, mão em mão. três
da manhã você sai de casa, e há luz, e música, e dança, três e meia e o que há são olhos, às quatro já há segredo e no segredo brilha a chama ambígua da culpa, às cinco é tarde demais, há a doçura obscena de querer o que não se deve, às seis não sou sua mas tornando-me sua me torno tão eu tão meu corpo tão uma só que o desejo emudece ensurdecendo.
há quem diga que o destino é a manifestação da querência do mundo todo. querência no sentido de querer. querência no sentido de ser pra onde a gente sempre volta, a natureza pedindo, e ela pede. destino: o mistério secular de acontecer o que acontece e haver o que há. o que há é um demônio te esperando, você sem saber se quer devorar ou ser devorada.
às vezes quando saio de casa vou pela corda do acaso pelos lugares mais impensáveis até chegar na boca faminta do desejo, esse maldito que vira ele mesmo a teia enveludada do destino porque cristaliza o acaso e me domina, e era pra esse ser um texto de crítica literária sobre fatalismo mas não é nem pode ser porque possuída só consigo pensar em mãos, em pés, em dedos e em bocas, e no prazer terrível que é ter um corpo e ser de carne, e na malícia alegre que é querer ser vítima do destino, e há algo de muito imperativo nisso tudo porque eu poderia estar fazendo um monte de coisa mas estou aqui, dando voz a essas mãos que não são minhas, elas que estão ardendo ansiosas mas, sendo plena terça-feira e à luz do dia o descaso pela sensatez banido, resignadas a respeitar a raiz da palavra desejo, do latim desidere, que pede: esperar pelo que as estrelas trarão. há destino? há desejo, e no desejo, a necessidade mais absoluta.