Meses atrás, celebrando o centenário da morte de Machado de Assis, publiquei nestas colunas alguns artigos em que comentava meus contos preferidos do mestre. (Nem comentei todos; deixei alguns de que gosto muito para comentar mais adiante, quando faltar assunto.)
Agora, quero aproveitar e fazer o mesmo com Edgar Allan Poe, um dos meus escritores favoritos desde a infância, cujo segundo centenário se comemora este ano.
Poe nasceu em 1809 e morreu em 1849. Em apenas 40 anos de vida escreveu uma obra de quantidade e qualidade impressionantes. Meu volume dos Complete Tales and Poems (Vintage Books) tem 1.026 páginas. O de Essays and Reviews (The Library of America) tem 1.472 (excluindo as notas e o índice remissivo).
Tudo isto escrito à mão, e quase sempre no estado de absoluta penúria financeira, agravada pelo jogo e pela bebida.
Poe foi um precursor, no começo do século 19, de três tipos de literatura que estiveram entre os mais populares do século 20, e sem sinais de decadência no 21:
1) a narrativa de terror psicológico ou de terror sobrenatural;
2) o conto policial analítico-detetivesco;
3) a ficção científica.
Todos os praticantes de alguma importância nestes três gêneros, durante os últimos 150 anos, leram Poe em algum momento de suas vidas, e lembram bem o que leram.
Sem falar em Poe, o poeta. Pelo menos três poemas dele (para o meu gosto) são clássicos irretocáveis: “O Corvo”, “Annabel Lee” e “Ulalume”.
Muitos críticos torceram o nariz para seu vocabulário opulento e suas sonoridades exageradas, mas dentro da chamada poesia simbolista os momentos mais altos de Poe não foram facilmente superados pelos que aprenderam com ele.
Um outro aspecto é o de Poe, o crítico. O jornalismo literário num país provinciano como os EUA de seu tempo era uma espécie de igrejinha laudatória. Escritores se elogiavam mutuamente nas revistas e jornais, e construíam reputações diante de um público embasbacado e sem muitos parâmetros críticos para distinguir quem era bom mesmo, e por quê.
Poe foi um crítico que não apenas estourou sem piedade as reputações alheias como se fossem bolhas de sabão: ele mostrava por que motivo os contos, poemas e romances de A, B ou C não prestavam.
Dissecava a sintaxe, os processos estilísticos, revelava os barbarismos, os clichês, as encheções de lingüiça. Denunciava os plágios e as imitações; comparava os famosos do momento com os clássicos (desconhecidos do público) a quem esses famosos estavam descaradamente imitando. E assim por diante.
Foi sua verve de crítico, infelizmente, que ajudou a destruir sua vida, com os muitos inimigos que arranjou (sem falar nos seus defeitos evidentes, claro – a bebida, em primeiro lugar).
Poe teve uma vida trágica e deixou uma obra que brilha cada vez mais, 160 anos após sua morte. Qual o grande escritor de hoje que ainda será tão lembrado no ano de 2169?
1873) 200 anos de Edgar Poe (11.3.2009)
Edgar Allan Poe, Literatura, Crítica literária, Terror, Ficção científica
Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo
