Confir a entrevista concedida pelo escritor Ricardo Aleixo à fina

Bruno Pernambuco

“Permeável a tudo”. É como se define o eu lírico de Máquina Zero, de Ricardo Aleixo. O poeta relembra a expressão, em nossa conversa, para definir seu momento artístico atual, de grande entusiasmo. Assim como o esforço feito em Sonhei com o Anjo da Guarda o Resto da Noite, biografia recém-lançada pela Todavia, Aleixo presentifica a palavra passada. Ele abre, com a situação apresentada no poema, uma permeabilidade que atravessa o tempo.

Perguntado se hoje se vê na posição de referência que um dia, dentro das artes plásticas, enxergou em Lygia Pape – um capítulo da biografia narra a experiência de Aleixo em uma oficina conduzida pela artista – o poeta responde que, se tal posição existe, ela traz bons encontros. “Me considero no melhor dos mundos como artista, tendo conquistado o respeito dos que vieram antes e dos artistas da minha geração, e o interesse de artistas mais jovens que eu, que se aproximam da minha obra”, diz, destacando possibilidades trazidas pelo trabalho, como o encontro com Augusto de Campos

Essa posição de reconhecimento também aproxima passado e futuro, estabelece uma linha que faz dialogar diferentes gerações de artistas, com diferentes referências e percepções de mundo. “O modo como as pessoas mais jovens se aproximam da minha obra é instigante”, diz o poeta, “elas dizem ‘obrigado pelo  que foi trilhado’, mas de forma alguma reduzem sua própria criação artística”. Ele prossegue: “O que me importa, nesses encontros, é deixar que essa conversa aconteça: o que nessas pessoas precisa de um impulso, a partir das pessoas que, como eu, já vêm trabalhando há algum tempo- e o que, em mim, precisa do contato com essa nova geração de artistas?”

Movimento

Tempo e Espaço são aspectos definidores de qualquer narrativa. Na escrita de Sonhei com o Anjo da Guarda o Resto da Noite, cujo processo de composição toma o papel de uma história independente, há um deslocamento espacial que Aleixo aponta como fundamental: a mudança temporária para o Rio de Janeiro, que permitiu concretizar aquilo que eram apontamentos soltos de fatos e histórias interessantes. “Foi a mudança que me permitiu estabelecer um ritmo para a criação, um ritmo de trabalho que possibilitou compor o livro. Depois disso, não restou em mim medo nenhum de trabalhar com as memórias.”

O poeta nota algo importante: a possibilidade de dedicar-se integralmente ao trabalho de composição da obra em prosa é um resultado das condições materiais que envolvem o trabalho da escrita. Escrever os três volumes de prosa, além de um outro volume curto entitulado Diário da Encruza, foi uma confirmação da condição profissional de escritor. 

“Os volumes de memórias só puderam acontecer por conta do sucesso de Pesado Demais para a Ventania, antologia também publicada pela Todavia, e, em especial  pelo sucesso com o público jovem”, diz Aleixo. “Foi a negociação com a editora, após a publicação de Pesado Demais, que me permitiu, eventualmente, concretizar a condição de que eu necessitava para o trabalho com a biografia”.

Uma das dificuldades de trabalhar com a escrita de memórias, diz o autor, foi o excesso de material possível para abordar no livro. A sua casa no Campo Alegre se tornou um espaço que, com suas múltiplas dimensões sobrepostas de memória, impossibilitava o trabalho. “Só foi possível escrever ao me distanciar daquilo que é usual. Desde as minhas referências até as minhas roupas, os discos, os livros, os meus temperos, o meu terreiro.”.

A mudança para o Rio, que estabeleceu uma condição, como define Aleixo, de ter “todas as horas do dia disponíveis para a criação”, permitiu uma fruição do trabalho que até então não tinha se concretizado. O poeta aponta que não foi possível elaborar o livro mesmo durante outros deslocamentos físicos, anteriores à viagem, ocupados por compromissos profissionais. A mudança física, no processo descrito pelo autor, é a representação de como são fundamentais, basilares para o trabalho escrito, as questões de subsistência, com a remuneração pelo seu trabalho. Somente a autonomia financeira abre a possibilidade de realização completa do trabalho do escritor como ocupação profissional. Aleixo aponta que esse é um ponto pouco discutido – e às vezes declaradamente ignorado- dentro do trabalho com a literatura, no Brasil. 

Abordando esse ponto, Aleixo o autor retoma questões elaboradas em Sonhei com o Anjo da Guarda o Resto da Noite, especialmente ao tratar de uma visão de classe média que domina, historicamente, a circulação de livros e o debate sobre literatura no Brasil. Aleixo assume o esforço de circular sua produção poética por espaços que estão fora dessa mediação institucional – marcado em apresentações e debates de sua obra em centros de detenção, por exemplo.  Podemos É possível ler esse esforço até mesmo na identificação encontrada com o público jovem por Pesado Demais Para a Ventania. Este é, assim, um trabalho que valoriza o escritor e o aproxima de seu público.

Transformação

Durante a conversa, Aleixo assume uma condição de sua obra que, à primeira vista, poderia dar a impressão de intermitência, mas que, na elaboração do poeta, se estabelece como uma marca de seu trabalho, propositalmente elaborada: a de “um ser literário mutante”, que não busca uma unidade, temática ou procedimental, para definir sua obra. “Olhando meus livros, tenho a sensação de ver uma coletânea de vários autores.”, diz o poeta. “O que tenho é uma plena aceitação da mudança do pensar e do sentir”

Essa condição mutável aparece mesmo em um efeito propositalmente elaborado pelo poeta na escrita de Sonhei com o Anjo da Guarda. “Ao trazer para o presente a voz que narra os acontecimentos, queria que as pessoas se sentissem tão perdidas quanto eu fiquei.”, diz Aleixo. O autor também elabora como esse procedimento de recriação foi algo que instituiu para si no trabalho com as memórias. “Esse trabalho foi para mim como um exercício constante de perguntar-se. Tive, por concepção, que tudo é passível de repergunta. E a partir desse processo, que foi demandante, foi surgindo um domínio da forma textual.”

É possível enxergar esse exercício de repergunta na mutabilidade do texto de Sonhei com o Anjo da Guarda. Trata-se de um texto em que, de maneira extremamente coloquial e acessível, cada pergunta lança uma questão à seguinte. Os acontecimentos do presente constantemente questionam o passado, e a forma da escrita surge a partir da reinvenção. De maneira elegante, o primeiro volume biográfico, ao mesmo tempo em que apresenta acontecimentos da vida de seu autor, se encaixa dentro de um projeto maior, proposto por Aleixo, de exploração da palavra escrita e de manifestações artísticas que abarcam diferentes linguagens. Com suas palavras, o autor simultaneamente olha o passado e transforma-o em uma elaboração no presente. Aleixo age, também, sobre o tempo atual, refletindo sobre questões que envolvem sua produção literária.

Imagem Banner: FLIP