Resenha publicada originalmente em “A Tribuna” de Santos , em 06 de março de 2001
Há 50 anos, Julio Cortázar (1914-1984) lançava sua primeira reunião de contos, Bestiário. A reedição recente de outra coletânea, OCTAEDRO (em tradução de Glória Rodriguez), pela Civilização Brasileira, permite ao leitor brasileiro constatar como em 1974 (ano do lançamento do original, e não 1964, como informa a editora), o grande escritor argentino ainda se mantinha bastante inspirado no exercício do texto curto.
A frase-chave do livro pode ser encontrada em Aí, mas onde, como e faz lembrar Clarice Lispector: “…se escrevo é porque sei, embora não possa explicar o que sei…”. Em vários momentos de OCTAEDRO, os narradores estão envolvidos com o próprio ato de escrever, criando outro tempo, outras vidas, possibilidades intersticiais no mundo do cotidiano chapado e rotineiro.
Já no citado Aí, mas onde, como, o narrador revive incessantemente a agonia e a morte de seu amigo Paco, ocorrida 30 anos antes. É como um ritual no qual Paco não pára de agonizar e morrer: “…outra vez me deitar e viver como qualquer um, fazendo o possível para esquecer que Paco continua aí, que nada termina porque amanhã ou no ano que vem eu acordarei sabendo como agora que Paco continua vivo, que me chamou porque esperava alguma coisa de mim, e que não posso ajudá-lo porque está doente, porque está morrendo”. A escritura instaura o eterno-presente.
Em Liliana chorando, o narrador, supostamente moribundo, escreve o futuro a partir da sua morte e passa a viver cada momento desse futuro-possibilidade, angustiando-se ao ser informado de uma possível melhora, a qual interromperia a seqüência de acontecimentos que foi vivenciando como uma outra vida possível. É uma obra-prima e tem um dos finais mais esplêndidos já escritos (de passagem, não custa anotar a recorrência de situações de enfermidade e estágios terminais na obra de Cortázar, também reiterada em OCTAEDRO por outro conto, o estranhíssimo As fases de Severo, onde o enfermo transforma-se num showman).
O extraordinário Manuscrito encontrado num bolso apresenta um narrador envolvido na tentativa—meio Sísifo meio lúdica—de burlar a jaula do cotidiano. O título contém uma brincadeira com a tradição literária (por exemplo, Manuscrito encontrado numa garrafa, de Poe, cuja obra foi traduzida por Cortázar), ao usar o artifício do manuscrito achado como gancho para evocar terras imaginárias e experiências fabulosas. A “terra imaginária” onde transcorre o texto é Paris, e a “experiência fabulosa” é um jogo envolvendo o reflexo de mulheres casuais nas vidraças do metrô. Essas mulheres e seus reflexos abrem brechas, feridas no ramerrão do dia a dia, até que um dia o narrador acaba conhecendo de fato uma dessas mulheres e então o terrível princípio de realidade ameaça sufocar o mundo do desejo. Por isso, é imperativo recomeçar o jogo, dessa vez com a cumplicidade da amada.
Outro tipo de jogo no metrô dá início ao célebre Pescoço de gatinho preto, que poderia ter sido filmado por Polanski nos seus bons tempos de cineasta (aquele de Repulsa ao sexo, O bebê de Rosemary, O inquilino). Não há nenhum gato no texto, apesar de Cortázar ter sido aficionado por eles. O título sugere uma sensação de delicadeza e vulnerabilidade, e também a possibilidade de violência e maldade, justamente o arco percorrido pelos acontecimentos: o protagonista se vê defrontado com a fragilidade da mulher que o aborda no trem subterrâneo e, no apartamento dela, a loucura e a brutalidade vão apagando as luzes, no sentido literal e no metafórico.
Texto final de OCTAEDRO, Pescoço de gatinho preto concretiza de certa forma o clima de ameaça e pulsões despertadas que pairam sobre outros dois momentos anteriores da seleção, Verão e Um lugar chamado Kindberg. Neste último, o encontro fortuito entre um homem maduro e uma jovem caronista, parece traduzir, ao abrir um leque de possibilidades não-aproveitadas, o que há de truncado e insatisfatório na vida experimentada e “realizada”. Já no magnífico Verão, a aparição fantasmagórica e assustadora de um cavalo que pode invadir a casa de veraneio faz emergir a hostilidade reprimida de um casal. É memorável o instante em que, tentando convencer a mulher de que o cavalo não invadirá a casa (com a atmosfera de violência irracional que “transmite”, mesmo do lado de fora), o marido praticamente a estupra, e é como se a invasão se concretizasse, enfim: “Segurou as costas de Zulma que tratavam de rejeitá-lo, empurrou-a de costas contra a cama, caíram juntos, Zulma soluçando e suplicando, impossibilidade de se mexer sob um corpo que a cingia cada vez mais, que a submetia a uma vontade murmurada boca a boca, enraivecidamente, entre lágrimas e obscenidades. Não quero, não quero, não quero nunca mais, não quero, mas já tarde demais…”
Assim como Aí, mas onde como evoca um texto mais antigo de Cortázar, o excepcional Cartas de mamãe (de As armas secretas), ao mostrar a presença muito viva de alguém que já morrera, um dos pontos altos de OCTAEDRO, Os passos no rastro evoca O perseguidor (do mesmo livro, de 1959). Temos mais uma vez um crítico e sua relação muito estreita, quase ao ponto da identificação e ao mesmo tempo cheia de má fé, com um artista específico. Ao escrever sobre o poeta Claudio Romero, o personagem principal se porta mais ou menos como um alpinista social. Publica com êxito seu estudo e empresta á vida e à obra de Romero uma impressão de identidade infraturável, unívoca. Jorge Fraga, o crítico, começa a se dar conta da falsidade e do equívoco, percebendo em Romero as mesmas fissuras, fendas e interstícios que determinaram suas próprias ações, seus próprios passos no rastro do poeta. Seu livro não esclareceu a verdade, apenas criou um mito, “algo que era necessário rejeitar e abolir, se não quisesse se afundar de todo em Romero, miseravelmente identificado até o fim com um falso herói de imprensa e radioteatro.
Como se vê, se por um lado o título OCTAEDRO é geometricamente exato (temos 8 contos), por outro não deixa de ser enganoso: como sempre em Cortázar, encontraremos muitos outros lados, numa geometria metafísica.










