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«Temos a responsabilidade de cuidar»
A literatura pode ser um lugar seguro, desde que a experiência não seja condicionada por episódios traumáticos. Porque contar uma história não passa apenas por conceder asas à imaginação, é necessário compreender o impacto que a mesma terá nos leitores. E isso dependerá sempre da abordagem e da facilidade com que tornamos os assuntos nítidos. Querer envolver a obra numa aura de mistério - apesar do seu género - não é errado, mas não deve colocar em causa a estrutura emocional e mental daqueles que embarcam nessa aventura literária.
Quando partilhei o texto acerca d' Os livros que não são para todos, a Beatriz Sousa [Suspiros da Bea] propôs-me um tema para reflexão, porque passou por uma situação que a incomodou, enquanto leitora, e que a fez questionar a pertinência de incluir gatilhos nas capas dos exemplares, visto que a narrativa pode ser mais sensível para certos públicos. Assim, a questão que se impõe é a seguinte: os livros devem incluir avisos de conteúdo ou isso pode ser considerado um spoiler?
O QUE SÃO AVISOS DE CONTEÚDO?
Os trigger warning são notas que sinalizam a presença de conteúdo mais delicado, que pode despertar eventos traumáticos e, por consequência, provocar sintomas e comportamentos de alerta em quem apresente distúrbios de ansiedade. E esse gatilho tanto pode derivar de uma cena explícita, como pode ser desencadeado por um apontamento mais subtil.
A IMPORTÂNCIA DOS AVISOS DE CONTEÚDO
Este tema não foi sempre intuitivo para mim, porque demorei a compreender que determinadas situações podiam despoletar danos psicológicos. E porque também caí na falácia de ser fácil separarmos a realidade da ficção. No entanto, embora seja uma história sem componentes verídicas, há passagens que têm o poder de nos magoar, porque nos transportam para acontecimentos reais. Além disso, atendendo a que não conhecemos o historial de quem lê, não é porque um tópico não nos custa, que não possa vir a prejudicar outros leitores.
Portanto, como parte de uma comunidade, acredito que temos a responsabilidade de proteger os nossos semelhantes. Se podemos facilitar o processo e evitar que alguém reviva um trauma, então, devemos ser conscientes a esse ponto. Colocar um aviso de conteúdo pode parecer-nos mínimo, porém, é a maneira mais eficaz para a prevenção. É por essa razão que, agora, antes de qualquer crítica literária, evidencio os possíveis gatilhos daquela história, para não comprometer a saúde mental de todos aqueles que a pretendam descobrir.
OS LIVROS DEVEM TRAZER AVISOS DE CONTEÚDO OU ISSO PODE SER CONSIDERADO UM SPOILER?
A minha resposta foi automática: sim, os livros devem trazer avisos de conteúdo, porque é uma forma de tornar a leitura mais segura. Se eu sei, à partida, que a narrativa explora um assunto que me incomoda ou que pode despertar memórias vulneráveis, tenho a hipótese de a colocar de parte e selecionar outra que me deixe bem mais tranquila. Se eu não tiver acesso a essa informação, não só sairei prejudicada emocional e mentalmente, como também acabarei por minar tudo o que diga respeito ao autor, uma vez que já não me sentirei confiante para o escolher.
Por outro lado, não considero, de todo, que sejam um spoiler. Os avisos de conteúdo servem para evidenciar as temáticas sensíveis, não para descrever o modo como as mesmas são descritas no livro. Portanto, temos noção da sua presença, mas não do momento, nem dos envolvidos.
Não obstante, ainda que fossem suficientemente elucidativos da situação, sinto que, acima de tudo, está o nosso bem-estar. Por isso, assinalar os gatilhos deve ser prioritário. Para a proteção de todos.
DUAS NOTAS FINAIS
Há imensos gatilhos e nem sempre é simples entender quais devemos assinalar. Nesse sentido, a Jéssica [Fofocas Literárias] criou uma publicação que é bastante útil e que podem consultar aqui. Além disso, partindo de um pensamento partilhado pela Elga [Quem Me Lera], acho fundamental lembrarmo-nos disto: mesmo que a menção seja mínima, devemos inclui-lo na nossa lista de avisos. Para nós, pode não ter consequências, mas, para os outros, pode ser um impulso para o caos.
Acham que os livros devem trazer avisos de conteúdo?
