Pintura do alemão August Macke Saio às ruas na tentativa de novas descobertas. A primeira mais evidente é a grande quantidade de gatos Gustavo Nagib O som produzido pelas dobradiças da porta, movimentada pelo vento fresco de inverno, ecoa pelo apartamento ainda vazio. É uma trilha sonora que corrobora a sensação de solidão. Chegar em um novo horizonte é como despir o mistério. Procuro um calço qualquer para estancar aquele vaivém, mas são tantas coisas na listinha que me contento em conseguir pregar o espelho na parede: “Depois é só inverter a bucha e passar gesso para tapar o buraco”. Da mata tropical, restou apenas a terra roxa descampada. A poeira, que deixa o horizonte esfumaçado, é a mesma a tingir de vermelho a sola do pé ao andar descalço pela casa. Sempre tem a companhia dos besouros, atraídos pelas lâmpadas acesas. Confusos, fazem barulho de tanto que se debatem. Indico o caminho da liberdade janela afora, mas as luzes os guiam de volta. A paisagem pouco se modifica até o Rio Paraná, embora a última cidade do estado seja bem mais aplainada, assentada sobre a planície fluvial. Represado, o rio produz energia e transforma-se, aos olhos e desejos humanos, num imenso mar de água doce no centro-sul do país. Atravessar a ponte de um estado a outro torna-se atração turística. Há grandeza e lonjura. Saio às ruas na tentativa de novas descobertas. A primeira mais evidente é a grande quantidade de gatos. No meio da calçada, sempre há montinhos de ração. Os felinos já nem se incomodam com o trânsito de pedestres. Alguns ousam pedir carinho ou se entrelaçam entre as pernas dos transeuntes. Mas o perfume de xixi de gato é onipresente, à espera que a santa chuva venha amenizar o mau cheiro. Os ipês-rosas dão o ar da graça no parque da cidade. Tenho a sorte do frio fora de época, mas sinto a ameaça do calor que promete arder a alma. No almoço, o prato feito é servido no quintal ventilado do vizinho: arroz, feijão e o acompanhamento do dia. A sorte é o bom gosto musical do cozinheiro, que acolhe a freguesia com Clube da Esquina e Novos Baianos. Nesta primavera, meu cotidiano é minha rua: a ladeira que me leva ao trabalho, o restaurante no caminho, os gatos, o bar na outra esquina e a descida que me traz de volta para casa.