Encomendaram um plano, 256 páginas, é da 7 Letras

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Oito personagens estão presos num palácio. À espera de um autor? À espera de Godot? Não. Sim? Talvez. Estão à espera de algum sinal da “presidência”, o órgão que controla a ilha onde vivem, em algum tipo de regime autoritário a respeito do qual pouco entendemos, e que os convocou para passarem ali um tempo indeterminado. Como punição? Como recompensa? Ninguém sabe. Mesmo depois que descobrem que todas as portas do palácio estão abertas, não se atrevem a sair, pois “Ninguém é louco de descumprir uma ordem da presidência”

As refeições e os trabalhos de limpeza ficam a cargo de criados que nunca são vistos por ninguém. Os quatro homens e quatro mulheres não sabem o que está acontecendo, quais os motivos concretos que os levaram até ali, e o quê afinal todos têm em comum, se é que há algo em comum. Abigail é historiadora, Sara é bióloga, Esther é psicóloga, Valentina é joalheira; Benjamin é coreógrafo, Nicholas é programador, Oliver é juiz de tênis, Sidney é diretor de cinema.

A narração é em terceira pessoa, mas de vez em quando assume a postura que alguns chamam de “falsa terceira”: o narrador se aproxima do ponto de vista de um dos personagens e dedica algumas páginas a ver e narrar tudo pelos olhos dele.

Já dentro do palácio, encontram uma carta que, aparentemente, lhes traz uma espécie de missão, vagamente formulada. O texto fala sobre dois vizinhos hipotéticos.

“Dois vizinhos não se toleram, mas recusam-se a mudar-se. Se chegasse a tanto, e estão dispostos a chegar a tanto, prefeririam a morte a deixar os seus respectivos terrenos. Os dois não se atacam, não se provocam: ao contrário, cumprem manobras laboriosas para nunca se encontrar”

A tarefa deles, se é que essa carta foi deixada ali na intenção de comunicar tal coisa, é: “Elaborem um plano capaz de levar os dois vizinhos a alcançar e sustentar um convívio de efetiva harmonia”

É claro que, sem conhecer realmente os detalhes da tal situação hipotética, é impossível fazer qualquer plano, de modo que os esforços dos oito para tentar “resolver” tão abstrato problema são mínimos. Abigail, por exemplo, faz anotações e mais anotações, rascunhos de ideias que não levam a nada. Assim, todos vão ficando no palácio eternamente.

Em certo momento, alguém sugere que os livros da biblioteca do palácio talvez estejam relacionados ao problema cuja solução talvez devam estar buscando. “Todos têm, só que nunca é nada direto. Você sente que é útil, que aprendeu alguma coisa importante, mas não é capaz de explicar.” Bom, de certa forma, todo livro tem uma relação desse tipo com o problema da vida.

Talvez a estadia prolongada naquele local (meses? anos?) seja uma oportunidade de reavaliação do passado. Esther, por exemplo, reflete que

Aprontou horrores, mas sempre cobriu as diabruras com justificativas capciosas. Fez o mal fantasiando que estava fazendo o bem. Precisou vir para o palácio para se dar conta disso, para se dar conta de quem é.

Mas não se espere que nenhuma lição ou aprendizado seja claramente exposto. Os capítulos exploram com atenção a psicologia de cada um dos personagens, que são muito bem construídos: a visão que cada um tem de si e dos outros, as relações entre eles, as maneiras pelas quais se sentem alterados pela estadia no palácio.

Praticamente não há enredo, a obra se sustenta nas reflexões daquelas oito pessoas a respeito das próprias vidas e da situação em que se encontram. É um “romance de atmosfera”, voltado mais à exploração psicológica do que à narração de acontecimentos.

Quem odeia quer maltratar, quer prolongar o sofrimento alheio. O intolerante só aceita a dizimação completa. O ódio é quente, e onde há calor, há possibilidade de transformação. A intolerância é fria, e onde há frieza, nada muda. A inércia trabalha para o mal.

A verdade é que não está aguentando mais ser alvo de tanta incompreensão. A incompreensão está se acumulando sobre ele como uma poeira amaldiçoada, que não sai. Está difícil respirar. Essas pessoas, o tempo todo, com essas opiniões equivocadas circulando dentro das suas cabeças.

Nenhuma machadada.

(lembrando que livro sem machadada é ótimo, uma machadada é bom, duas é fraco e três é muito ruim)

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