Mercedes Crop (reprodução)
Avalanche editorial enche livrarias dos livros de George Orwell; ‘A Fazenda dos Animais’, com tradução de Paulo Henrique Britto, é um deles
Matheus Lopes Quirino
Em 2020, completaram-se 70 anos da morte do escritor e jornalista inglês George Orwell, autor, entre outros livros, de clássicos como “1984” e “Na pior em Paris e Londres”, além do título mais conhecido do autor, “A Revolução dos Bichos”, com única tradução brasileira feita por Heitor Aquino Ferreira, ex-assessor do general Gobery do Couto e Silva no então SNI, o Serviço Nacional de Informações do período militar. Isso até 2020.
Com a obra tendo entrado em domínio público, várias editoras publicaram os livros de Orwell com novas traduções. A própria Companhia das Letras, que tinha os direitos do autor, resolveu repaginar e relançar seus clássicos, publicando nova tradução de Animal Farm, por Paulo Henriques Britto, mudando também o título por “A Fazenda dos Animais”. Deu certo. Saíram edições de luxo, além das clássicas que os leitores já estão habituados, e que vendem bem; em grande parte por serem leituras obrigatórias em escolas. O encantamento da prosa de Orwell, por assim dizer, é resultado do quão trabalhadas são as metáforas do autor.
Um homem que viveu intensamente o século XX, George Orwell esteve em guerras, mas também frequentou salões da aristocracia. Não à toa seu olhar aguçado incomodava críticos, os terríveis ingleses avessos aos novos costumes. Na Inglaterra, não por coincidência, surgiram dezenas, se não centenas de movimentos que iam em desencontro com os ismos britânicos. A efervescência cultural inglesa foi laboratório para multifacetada fortuna crítica de pensadores que se espalhou pelo mundo com nomes que vão de Graham Greene a John Lennon.
Desde a revolução industrial, nos Séculos XVIII e XIX, intelectuais se debatiam para tentar compreender as mazelas sociais daquele país que sustenta uma nobreza parasita e mantém costumes engessados. Tendo lutado ao lado dos revolucionários na Guerra da Independência Catalã, Orwell, que era um adepto do marxismo e trotskismo, ferrenho crítico do nazismo, e ensaísta renomado, formulou a fábula Animal Farm, em 1945. Na distopia, ele lança uma sátira que transforma os líderes populistas em porcos. O livro chegou a ser censurado em diversos países, entre eles o Brasil.
Na Fazenda do Solar, o sr. Jones era mal visto pelos animais, que começam a seguir uma espécie de profecia ditada por um velho porco, que tem uma espécie de sonho premonitório. Descontentes com as precárias condições em que viviam na fazenda, os porcos, seres mais inteligentes na fábula, começam a esquematizar uma tomada de poder em conluio com os outros bichos. Daí surgem os mártires da revolução, vamos dizer. Dois porcos de temperamentos diferentes. São eles Bola de Neve, que lista os sete mandamentos que os animais precisam seguir para que o animalismo prosperasse e Napoleão, que mais tarde puxará o tapete do amigo.
Quando Jones e expulso e os porcos começam a implementar as mudanças o trabalho é dividido entre os animais. Há quem somente faça o trabalho duro, para não dizer braçal, pois a condição a qual o cavalo Guerreiro e as ovelhas se submetem vão se deteriorando. As perspectivas vão se fechando, e ao lado de napoleão há uma espécie de marqueteiro, Guincho, o porco que faz os pronunciamentos oficiais da Fazenda dos Animais.
Manipulando o discurso da revolução e reinventando mandamentos, a ponto de desfigurar todo projeto inicial estabelecido, Bola de Neve é taxado como vilão e passa a ser procurado. Os animais ficam estarrecidos, mas são contornados com os discursos prontos de Guincho. Há sim um ou outro ponto de resistência, que vão para o rol de inimigos. A dicotomia entre humanos e porcos, à grosso modo, transforma-se em uma coisa uma.
Atemporal, os sintomas do autoritarismo e todas as armas propagandistas que se beneficiaram os porcos são sementes do fascismo crescidas na Fazenda do Solar. É uma fábula escandalosa, que permanece como uma metáfora para todos os governos considerados populistas. Os porcos são o arquétipo mais simbólico possível, passam-se os anos, engordam, já outros animais morrem de fome.
A fazenda dos animais
George Orwell
Tradução: Paulo Henriques Britto
Páginas: 136
2020
Penguin Companhia
Publicado por Matheus Lopes Quirino
Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino