Juntando as palavras – Carnaval: de personagens a expectadores

Carnaval: de personagens a expectadores

O meu carnaval não existe mais, a não ser na minha lembrança, pois não é o mesmo carnaval do axé, dos trios elétricos, dos sambas enredo e das alegorias luxuosas. O meu carnaval é fantasia, confete, serpentina e marchinhas.

Comecei a frequentar os bailes infantis de carnaval aos dois anos de idade, minha mãe confeccionava as fantasias e tirava foto todo ano. No ano seguinte ela comprava mais tecido, alguns acessórios e reclicava a fantasia antiga, minha irmã do meio (na época éramos só duas, mais tarde veio a caçula) às vezes “herdava” a minha antiga fantasia, mais a mãe sempre usava a criatividade para o traje não ser reconhecido.

Era sempre uma expectativa, a mãe comprava cetim, tule, lantejoulas, uma fita metalizada que desconheço o nome, talvez seja um tipo de viés, e então começava o processo de criação: ela media a gente, recortava aqueles tecidos, aplicava as lantejoulas. Eu nunca sabia o que passava na cabeça dela, pra falar a verdade nunca escolhi o tema da roupa, a imaginação era toda da minha mãe. Lembro que tudo combinava, desde a sapatilha até o rabicó do cabelo, era um lindo trabalho artesanal.

Enfim roupas prontas, cabelos penteados e com muito gel, na época era moda do tal do New Wave, um gel com purpurina, para o carnaval era o máximo! A mãe ainda maquiava a gente, às vezes até colava lantejoula no nosso rosto com cola Tenaz, que saía na água.

Agora era hora de ir ao baile. O local era o mesmo de sempre: o Clube Tristezense, do bairro Tristeza em Porto Alegre. Todas as famílias conhecidas se encontravam lá, as amigas da mãe elogiavam as fantasias, ela ficava contente e a gente toda boba. Íamos ao salão com as amiguinhas, dávamos as mãos e saíamos pulando carnaval, dançando em círculos ao som das marchinhas que a banda tocava. Eu conhecia todas as músicas, antes do intervalo eles sempre começavam a tocar O teu cabelo não nega mulata… , mas não terminavam a música, pois interrompiam e anunciavam o intervalo. A fila da copa do clube ficava grande, era a hora de parar e tomar um guaraná.

O carnaval começava no sábado, era o Grito de Carnaval, acho que a gente pulava os quatro dias que se seguiam e no próximo sábado ainda tinha o Enterro dos Ossos.

Minha irmã caçula nasceu e ainda aproveitou um pouco com a gente, mais os bailes de clube foram acabando, a violência crescendo, e o desfile das Escolas de Samba do Rio tomando conta da ideia de carnaval dos brasileiros, créditos para a Rede Globo.

Hoje o carnaval que existe é aquele que vende revista e jornal, com a foto das  madrinhas da bateria, ou rainhas, eu não sei qual a diferença. Teve um ano que a mãe chegou a comprar uma televisão nova para assistir ao desfile, passamos de personagens do baile do bairro para expectadores do carnaval carioca.

A poucos dias atrás ficamos comovidos com o incêndio da boate Kiss, de Santa Maria, mais de 200 mortos, mais de quinze dias de reportagens e depoimentos em todos os canais de televisão, em todos os horários, as rádios, os jornais , as revistas todos exploraram o fato da melhor forma possível, mas agora o assunto é outro, pois já há outra pauta, mais rentável: o carnaval.

No último sábado, dia do Grito de Carnaval, a televisão estava ligada, era hora do telejornal, a apresentadora anunciava que os sobreviventes do incêndio da boate Kiss estavam se organizando para prestar apoio às famílias das vítimas fatais, a notícia apenas foi anunciada e em seguida ela fez a chamada: Vamos agora diretamente do Recife onde está o nosso repórter fulano de tal com as últimas informações do carnaval.

Enfim, que venha a quarta-feira de cinzas, ah, e com direito a transmissão ao vivo do resultado do carnaval carioca.

Letícia Portella

11 de fevereiro de 2013.