postado por Rafaé, o que lhe cabe.

O cenário de destruição, com roupas e sapatos misturados a livros e anotações, que compõe meu quarto é o retrato da disposição das memórias que carrego. Não sei diferenciar lembrança do que é versão.

busco, reviro, não encontro; ou possuo e não reconheço.

Certas lembranças parecem guardadas com etiquetas indevidas. No compartimento de “esquecimentos”, entre outras, situações dolorosamente ignoradas. Mas para elas, sempre existirão explicações temporariamente eficazes.

o presente se torna passado antes que eu visualize um futuro.

Entre as bagunças, física e mental, vejo fotografias de uma realidade questionável. Leituras de um então presente que já nem sei se existiu. Como as daquela tarde, no parque de sempre, sob a árvore que, além de sombra, dava pêssegos.

Eu, deitada em seu colo, lançava meu olhar ao horizonte, sem me preocupar com a distância em que ele se encontraria. Já você, me fitava. Ali, a menos de meio metro de seus olhos.

Sempre atribuí ternura ao seu olhar, mesmo sabendo que não se podem ver seus olhos nesta foto. Só você sabe onde estava. E por mais que não estivesse ali, trago comigo o conforto que senti.

E são as lembranças recortadas que constroem minha memória. Este passado-editado ampara o meu apático-presente, que tenta se convencer de que está pronto para enfrentar um futuro que, ai, só de pensar, sufoca.

olhando para trás vejo as únicas coisas que não tenho um ex-amor o que não inventei