Pão de Açúcar | Afonso Reis Cabral

Existem histórias que não cabem num romance. A morte de Gisberta, às mãos de um bando de miúdos, é um desses casos. Aconteceu nas zonas sujas da cidade, território neutro e propício.

São miúdos apanhados na fase comportamental que precede a adolescência, crianças em busca de referências, internados numa instituição de acolhimento onde, entre outras coisas, aprendem a arte da encadernação, profissão já extinta. Nada têm de seu, nem a memória de uma família, gente em formação que só na violência, encontra algo para oferecer. Do pouco que conquistam, seja uma velha bicicleta ou um pouco de atenção, convencem-se ser os senhores únicos do seu destino. O que pode acontecer quando nos prendemos a alguém? Quando finalmente somos a diferença na vida de quem nos precede na fragilidade? O troféu que se pretende partilhar com os amigos, sem perder a primazia.

Rafa não quer que mexam na bicicleta resgatada ao lixo, tal como não gosta que lhe disputem a atenção de Gi ou, pior ainda, que ela demonstre preferência por outro. O que pode a natureza do ciúme alterar aos nossos olhos? Quando não se conhece a generosidade dos outros, a mão estendida é uma prisão.

Escrever sobre o inenarrável é um desafio do domínio da grande literatura. Afonso Reis Cabral detém-se a observar a vida destes miúdos, sem a pressa de quem receia perder o leitor, permitindo aos personagens crescer aos nossos olhos. Liberta-se da noção do tempo, porque as emoções não pertencem a um determinado lugar e, tal como as memórias, vão e vêm desafiando a ordem cronológica. Só uma escrita lúcida e de uma inusitada sensibilidade pode dar corpo a este projeto.

Então, com cuidado para não a acordar, pus-lhe no pulso – para dar sorte – o amuleto de Alisa. A mão que agride e o gesto que cuida pertencem ao mesmo braço, ao ser aglutinador de toda a fragilidade humana. Gi e a sua história permaneciam suspensos no tempo; aguardavam por este livro, pelo resgate de aberração perdida nos confins da sociedade em ruínas. Na cave de um qualquer Pão de Açúcar, que não chegou a ser concluído, um grupo de miúdos testou os limites e a noção de pertença, num gesto iniciático que encontrou agora a paz.

gente que não entendia que estávamos no centro do mundo, talvez até do universo.

sobre o livro