Em 2024 tomei a importante decisão de reformar uma grave falha de meu caráter e tracei um plano desleixado para conhecer melhor a literatura de língua portuguesa. É verdade que ingressei na carreira acadêmica por gosto e influência da literatura, mas também é igualmente verdade que nunca fui grande fã de nossos escritores. Desde a infância, sempre fui muito mais encantado pelos clássicos estrangeiros do que pelos nossos. Mal natural da idade que contaminou a vida adulta.
Nesse caminho, já cai nos braços do maravilhoso Érico Veríssimo – por exemplo – que rendeu um bom texto sobre a primeira parte de sua trilogia, O Tempo e o Vento. Como fiquei muito alucinado pela obra e gosto de desintoxicar um pouco antes de tragar mais do vinho que mais me apetece, busquei um autor mais antigo e cuja leitura estava perdida em algum momento da adolescência, entre uma e outra leitura obrigatória na escola: Triste Fim de Policarpo Quaresma.
Do autor nunca fui íntimo da biografia e estilo. Só após a leitura da obra é que procurei trabalhos de Otto Maria Carpeaux, Massaud Moisés e Alfredo Bosi. sobre Lima Barreto, Otto refere-se rápida mas elogiosamente ao mulato de nossas letras: “um grande romancista, dedicado à sátira social contra um ambiente incompreensivo. [...] Lima Barreto é [...] um repórter letrado [...], socialista de temperamento anarquista; é revoltado contra a ditadura literária do parnasianismo acadêmico”. Para Carpeaux, Lima Barreto é escritor ácido sem igual na literatura latino-americana da mesma época: capaz de traçar tipos e denunciar mazelas de seu tempo de forma única e bem-humorada.
Já Massaud Moisés prefere um tom menos elogioso, construindo a imagem antagônica de um escritor bom, mas que não atinge todo seu potencial: “inscreve-se entre os raros herdeiros de Machado de Assis. Mas herdeiro independente, ou que, jogado pelos azares da fortuna e do temperamento, não pode seguir na trilha do mestre”.
Bosi falará do autor comentando sua biografia e ideologias para justificar sua obra, mas também reconhece seu tom jornalístico e vê na obra que li o resultado de um autor formado, com esmero e cuidado. Segundo ele, Triste Fim de Policarpo Quaresma consegue ultrapassar os ressentimentos do autor e consegue imprimir o tom irônico e sarcástico na postura ultranacionalista do personagem.
O Major Quaresma, aliás, tornou-se com mérito um ícone de nossa cultura. Sempre que precisamos nos referir com desdém a algum ato ou gesto exageradamente nacionalista nos referimos à caricatura ambulante que Lima criou.
Além da leitura corrida que havia feito, uma imagem que fixei na memória foi do ator Paulo José, de cocar na cabeça, falando absurdos para aqueles que zombavam de sua iniciativa de tornar o Tupi nossa língua nacional. Isso porque em 1998, ano que o filme chegou ao cinema, eu tinha lá meus 12 ou 13 anos e comentavam muito sobre este filme na tv. Como já era moleque dos livros, fiquei curioso por essa obra que trazia personagem tão espalhafatoso.
Policarpo é um amante da pátria em todos seus detalhes. Estudioso, não perde uma informação sobre seu país. A obra inicia, inclusive, com um curioso episódio em que o protagonista começa envergonhadamente a ter aulas de violão. À época, o violão era visto como um instrumento para vadios, vagabundos, malandros. O major, no entanto, via nele um ícone de nossa cultura: genuíno símbolo de nosso povo.
Neste ponto nos são introduzidos outros importantes personagens que seguirão a narrativa, como é o caso de Ricardo Coração dos Outros – trovador que Policarpo chama para tocar em sua casa. Também o compadre de Policarpo, homem rico e bem quisto na sociedade, mas que tem grande estima pelo protagonista; bem como a afilhada e a irmã.
Estes são personagens importantes porque constituirão núcleos narrativos na trama, por vezes ocupando capítulos inteiros. Neste ponto, concordo com Massaud Moisés quando ele diz que Lima Barreto acaba se perdendo em minúcias, detalhes e episódios. É comum estarmos ávidos acompanhando o personagem central e termos de passar algumas dezenas de páginas vendo situações corriqueiras na vida de outros enquanto nosso ponto de interesse adormece páginas adiante.
No entanto, quando volta ao palco, Policarpo é sempre capaz de nos arrancar risadas cerebrais. Não me refiro àquelas risadas físicas, que rasgam o ar e nossa face, mas dum riso de deboche, que a gente sente quando ele coloca o personagem em situações constrangedoras enquanto se recusa a reconhecer a falência moral do país. Quando acontece, por exemplo, dele estar cultivando produtos em um sítio e vender todo feliz sua produção lucrando miséria apenas pela paixão de recuperar a terra abandonada e “provar” que “aqui, plantando-se tudo dá”. Qual sua surpresa e nosso riso ao descobrir que ele teria de pagar de imposto bem mais do que conseguiu lucrar. Após todo sacrifício de cuidar da terra, plantar, arrumar comprador, transportar, ainda teria de engordar cofres públicos. Para piorar, a cobrança vem como vingança porque Quaresma teria se recusado a participar diretamente dos conchavos politiqueiros da região.
Claro que, como um bom Dom Quixote, nem só de graça viveremos essa jornada. Na verdade, é com melancolia que caminhamos para o fim do livro. O riso, a graça, o deboche, começa a dar espaço a uma pena, uma indignação de ver um personagem que só visava o bem comum ser maltratado por todas as estruturas do país que ele tanto ama. Com pesar vemos ser achincalhado após solicitar na câmara a adoção do Tupi como língua oficial. Ficamos triste ao acompanhar sua estadia no manicômio e depois sair da cidade pra dedicar-se à agricultura.
Na última parte de três, o livro nos engana levando a crer que Policarpo terá um fim digno, quando estoura a revolução e ele é convocado para ser Major em um dos postos de comando. A partir daí rimos com a caricatura exagerada de figuras históricas e acompanhamos as últimas decepções do protagonista em um misto de graça e tristeza.
O personagem é cativante, seu percurso é divertido e contraditoriamente penoso. Lima Barreto nos convida a refletir sobre nossa percepção da realidade, afinal, desde que seu clássico foi publicado não parece ter mudado muita coisa. Todo brasileiro que alguma vez já nutriu esperanças com algum aspecto de nosso Estado-Nação para logo em seguida ter a cara quebrada consegue ver Policarpo através de um espelho.
Apesar de ser um livro curto, a escrita de Lima Barreto por vezes se arrasta entre devaneios sonolentos e descrições demasiadamente vastas de ambientes sem graça e cor. Bem como sua insistência em desenvolver nuances de núcleos paralelos que nos parece nada além de uma tentativa de “preencher espaço” em uma época na qual cada página a mais significava dinheiro a mais no bolso. No entanto, um clássico continua sendo um clássico e, suportado os percalços, que falta faz em nosso tempo esse tom crítico e bem-humorado de Lima Barreto.


