Faulques foi repórter fotográfico por 30 anos. Especializara-se em fotografar a guerra, fosse em El Salvador, Moçambique, Croácia, Sérvia ou Kwait. Premiado por suas fotos impactantes, deixa a carreira de maneira quase repentina, se refugia numa torre em Puerto Úmbria para pintar um mural. Um gigantesco mural circular, que toma todo o andar inferior de sua nova morada. Uma pintura de batalhas.
A pintura é a essência de seu trabalho como fotógrafo e de sua paixão pelo trabalho de artistas como Goya, Doctor Atl, Brueghel e Uccello. É também a síntese de seu amor por Olvido Ferrara, colega fotógrafa, morta em Borovo Naselje. Vive uma rotina reclusa, metódica, sistemática, cujo equilíbrio imperfeito é perturbado pela chegada de Ivo Markovic. Markovic, croata, ex-soldado, fora fotografado por Faulques em Vukovar, sua imagem capturada num momento de derrota e exaustão, o olhar vazio. Esta foto destruiu-lhe a vida. Ivo Markovic deseja matar Faulques. Mas não antes de contar-lhe sua história.
O pintor de batalhas é o registro desta conversa entre fotógrafo e fotografado, assassino e vítima, entre pessoas unidas pelo desastre. É uma conversa franca, mas tensa; cordial, mas crua. Uma conversa que apenas quem conviveu com a destruição de uma guerra pode conceber. A relação entre dois homens que perderam tudo, mas sobreviveram. Falam de suas vidas, mas também falam da arte, das fotografias de Faulques, do mural de batalhas.
Entre os encontros, acompanhamos as reflexões do pintor de batalhas, compartilhamos suas memórias, vemos sua obra tomando forma. A descrição das imagens é dotada de uma objetividade fria, incluindo termos técnicos da fotografia e da pintura, como tempo de exposição, ou a forma de cuidar dos pincéis. Esses dados técnicos acabam reforçando a inumanidade do que é retratado, os horrores da guerra que, para os dois prosadores, é a vida em seu estado normal.
Conheci Arturo Pérez-Reverte por meio de O Clube Dumas, uma obra que aborda através de Luis Corso o universo literário numa história de mistério. O autor que li em O pintor de batalhas vai além. Somos imersos no cotidiano de um fotógrafo, observamos sua técnica de trabalho como se estivéssemos presentes. Faulques é um personagem mais desenvolvido, mais rico. Ivo Markovic é um pouco mais caricato, mas ainda assim contundente. A ameaça de morte, à qual o pintor de batalhas responde com serenidade inquietante, torna toda a narrativa mais pesada, mais significativa.
É um livro sobre arte, é também um livro sobre a morte. Sobre a insignificância do corpo sem vida, sobre a fragilidade de viver. Sobre a dor de sobreviver. Pérez-Reverte joga para o leitor a interpretação da pintura de batalhas, que reflete a personalidade de Faulques e a influência que o encontro com Markovic teve em seu processo criativo. A obra é recheada de simbolismos, como a presença de Olvido, nas lembranças de Faulques, nas perguntas de Markovic, nos bastidores das fotos, nas cores.
O nome da amante, tão significativo. O esquecimento morreu. Resta a lembrança. Ao aproveitar sua experiência como repórter fotográfico – Arturo Pérez-Reverte largou a fotografia para tornar-se escritor – o autor nos entrega uma obra perturbadora, recheada de imagens chocantes, pintadas com palavras. Não é uma leitura emocionalmente fácil. Mas vale cada palavra.
O PINTOR DE BATALHAS
Arturo Pérez-Reverte
Título original: EL PINTOR DE BATALLAS
Tradução: Sérgio Molina
256 Páginas
Selo: Companhia das Letras
Preço sugerido: R$ 49,50
Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras
