A Mais Preciosa Mercadoria | Jean-Claude Grumberg

Este pequeno livro, escrito num registo quase infantojuvenil, cheio de personagens adimensionais, arrebatou o coração de muitos leitores um pouco por todo o mundo e arrecadou uma mão cheia de prémios literários. Escrito por quem viu o pai ser levado pelos nazis para um campo de extermínio, este livro é uma parábola sobre a esperança e o efeito redentor do amor sobre o irreparável.

Este livro narra a história de um bebé lançado pelo pai para fora da carruagem que os levava para Auschwitz, e que foi recolhido por uma lenhadora muito pobre. Os estereótipos dispensam os personagens de serem conhecidos pelos nomes próprios, o bebé é a pequena mercadoria, os nazis são os devoradores de gente estrelada, os judeus são os sem coração, os que mataram Deus. Conceitos que fizeram a sua época e de cujo não regresso nunca estaremos seguros. A narrativa é muito simples, centrada no desenrolar dos acontecimentos e nas emoções dos personagens, que sendo adimensionais não acrescentam textura à história. Sabemos que foram tempos de progressivo esvaziamento humano, até que o impensável se concretizou. Recordar isso e como foi possível que todo um povo caiu na desgraça desmerecedora de misericórdia ou de uma mão amiga, por se acreditar serem os abortivos assassinos de Deus, é o maior mérito desta obra e talvez isso não seja pouco.

Um dia, talvez um dia, amanhã, ou no dia seguinte, ou fosse quando fosse, o comboio teria piedade da sua fome e, ao passar, dar-lhe-ia como esmola uma das suas preciosas mercadorias.

sobre o livro