Fotografia da minha autoria

Tema 21: Baleia + Óculos

A mesa estava reservada para o meio-dia. Tinham combinado no antigo restaurante O Baleia, na zona central da Avenida das Tulipas, por ser de fácil acesso - para chegar e para fugir, se a conversa azedasse. Portanto, pelo menos nesse aspeto, não havia necessidade de sucumbir aos nervos, que mal o deixaram dormir, por idealizar o pior cenário.

Faltavam dez minutos para o encontro e ele já estava sentado na esplanada, a observar a carta de vinhos, enquanto saboreava um cigarro, mas sem deixar de espreitar a rua, volta e meia, para verificar se a sua companhia se aproximava. Embora tentasse manter uma postura serena, existia uma inquietação a perturbá-lo. Afinal, foram cinco anos sem qualquer tipo de comunicação, de partilha, de interesse. E um hiato desta magnitude, naturalmente, pesa em feridas que demoram mais a sarar. Mas a vida avança. Até que, sem nada o fazer crer, ocorre uma chamada a estilhaçar a paz que, agora, se reerguia.

Terminou de fazer um pedido ao empregado, quando viu uma silhueta deslumbrante. Mesmo sem a observar na totalidade, era inegável a energia, a simbiose e a imagem de um passado que acreditou ser feliz e inquebrável. Levantou-se, qual cavalheiro, mas estagnou de imediato: algo no andar dela era vacilante. E ele nunca a conheceu hesitante.

A distância entre ambos era nula. Segura o suficiente para ela retirar os óculos e evitar olhares curiosos. E, então, ele viu: o lábio rasgado, um corte na têmpora e as lágrimas a explodir. E percebeu que aquele telefonema era a sua fuga e que ele era a sua única salvação.