Mário de Carvalho A Liberdade de Pátio Porto Editora
Se o dislate que afirma que o importante em literatura é contar uma boa história parece colher alguns adeptos quando se trata de romance, chegados ao conto os simplismos caem por terra. Um conto que mereça a eternidade não é uma boa história contada de forma breve, mas antes um prodígio de harmonia entre forma e conteúdo, ambos trabalhados como se nada existisse para além das suas fronteiras no que à linguagem diz respeito. Não há demasiados pedaços de prosa que possam servir de exemplo para a definição aqui ensaiada, pelo que é de saudar que Mário de Carvalho nos volte a brindar com mais uma mão cheia deles.
Logo no primeiro conto, o peso da história confirma-se irrelevante perante uma construção tão perfeita quanto a narrativa in media res que a alimenta. E se nas aulas sobre Os Lusíadas onde ecoa o termo latino é fácil perceber que o começo abrupto há-de resolver-se mais adiante, no conto de Mário de Carvalho não há recuo nem necessidade dele. “A cabeça de Mânlio” é um corte temporal numa cronologia que desconhecemos e que, graças à mestria verbal e estilística, dispensa qualquer explicação sobre os seus hipotéticos começo e fim. Sem espaço para dar conta dos sete contos que compõem o livro, registe-se que os absurdos quotidianos, a arbitrariedade do poder instalado ou os mal-entendidos que atravessam todas as vidas são temas presentes, mas que o brilho está todo no modo como cada um deles serve o gesto constante de transformar episódios comezinhos em pérolas literárias.
Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, Out.2013)
