Hitchcock, colado à porta do armário, dava boas-vindas aos maus espíritos do lar com ar debochado.
André Vieira
Raspávamos os dedos no lençol. Rasgávamos a seda antes das luzes se apagarem. Reservámos os melhores lugares da frente, sobretudo quando era sexta. A ideia era mentir que um estava na casa do outro, só pra ter mais tempo de ler os créditos e voltar pra casa discutindo cenas rápidas ou “pintando o set”, como papai me falava quando meus olhos cintilavam como estrelas de ouro e de ferro na calçada mais famosa de Hollywood. Mas naquele dia o suspiro foi de tristeza.
Eu, Jéssica e Alfredinho sempre fomos os estranhos da galera. Mesmo todos nascidos no Rio, com exceção de Jéssica que vinha de Macaé, nossa praia eram os livros, os quadrinhos, a televisão com descanso de móvel. Podiam nos chamar de chatudos, feiosos e cabecentos, mas nunca ouviriam uma palavra nossa quando o assunto era os jogos de botões ou os álbuns de figurinhas cromos cola d’água: tínhamos ojeriza por futebol e terror de torcedor (o mingau que o diga). Pra gente, hora do lanche era momento de bater perna do pátio e ouvir fofocaiada de Catarina, bedel 4 por 4, com dentadura titânio, ou ver o que o professor de química, Seu Francisco, trazia na pastinha preta, terror de todo fundamental e ginasial.
Um dia, porém, veio de mochila nas costas e um ar bufante de vendedor de batatas:
— “Vai ficar só olhando, Jéssica? Me dá uma mãozinha aqui, caramba!”, nos disse como se um caroço fixasse morada em suas costas e o deixasse corcunda.
— “Mas só eu professor, e o Alfredo e a Malu? Por que só eu que tenho que ajudar o senhor?”, falou resignada com a tarefa parecia uma das equações de Bohm.
— “Tua amiga e aquele maricas? Peralá, né Jéssica. Se for pedir por choro e viadagem, eu ligo pro irmão Anastácio [professor de religião e diretor de ética do colégio Nossa Senhora da Concessões]. Tu me pega uma mesa pra mim porque ele tá teimando de virar, Jéssica. Vai!”
Em poucos instantes o ardor do trabalho o fez desengravidar uma minada de metal. Rígida e dura, parecia roubar pra si todas as atenções do pátio. Pesava uma tonelada e meia e, não obstante, não serviria como bigorna, martelo ou aço pra qualquer coisa que papai fazia na fábrica. Suspirando o suor dos derrotados, Francisco tirou do paletó manchado de hálito uma espécie de papel preto, meio fosco, que entrou de uma vez nas orelhas da máquina. Antes de se desmontar numa cadeira perdida, após a sessão de parto, me puxou pelo braço e sibilou quase desmaiando o seguinte:
— “Malu, por favor, você poderia ligar o projetor na tomada e apertar o botão?”.
Estranhei o pedido de intimidade que Seu Chico tinha feito, afinal, suas aulas eram um misto de tédio com bocejos, resumindo tardes estranhas a fenômenos pequenos: mol, combustão, teorias atônicas…. Sempre fui a pior da classe. Mas de súbito, com o nascimento de seu filho de ferro, voltei a existir.
Um feixe de luz irrompeu do bico metálico, fixou um ponto preto na parede branca do refeitório, estava vivo. Bedéis, merendeiros, alunos e caixas largaram as atividades em punhos e foram aos solavancos acompanhar sob os cotovelos nas mesas: uma corrida dos iroquois singrava as pradarias peladas repletas de búfalos. Nossas cabeças acompanhavam o movimento dos canhões, dos índios, da câmera americana cujo foco alternava entre heroísmo e tragédia, perdição e santidade. Até os meninos do campinho abandonaram a partida em metade da meta.
Eram assombrações, espíritos, zumbis quando o sinal do meio dia e meia tocara e despertava todos do transe da tela. Aos poucos, as tocas brancas voltavam pra toca, os meninos flanavam às salas como andorinhas, e nós, habituais abutres da caixa mágica, perambulávamos a finada carniça sobre a cadeira:
—“Professor, Professor! Que tipo de televisão era aquela? Por que ela se mexe em preto e branco? Por que é que não tem som?
O falecido Francisco se libertou do movimento estático-cadeira e ergueu os olhos pra gente como se confidenciasse um segredo, libertando o verbo de qualquer vontade de ser entendido em raciocínio direto:
—“Aquilo, senhores, é um projetor. Um mecanismo encantado que encobre em vida tudo que encontra. Histórias do passado, invenções do futuro; mentiras pulsantes da poeira de nossos sonhos… É como pegar os óculos e enxergar um novo mundo perante o nariz”, contou como se fosse alguma piada de muito mau gosto, que nem ele mesmo acreditava mais.
Mas para nós, o touro brônzeo era a pura manifestação de arte.
Dali em diante nossa ilusão se tornara minha realidade. Toda quarta, sexta e domingo, a visita estava marcada por entre os potes e balas, na qual pipoca se esmigalhava no chão escuro pré-lanterninha. Já quando a mesada era pesada nos bolsos e até do lanche se economiza uns trocados furados, até valiam as matinês de terça, em cuja poltronas se serviam os casais mais desinibidos e os homens solitários, experts da descrição da palavra e da habilidade com livros de uma mão. Não ligávamos.
Da paixão, floresceram os atores, os diretores, os cartazes que persianavam as paredes, portas e banheiros do quarto. Suspiros de Grace Kelly me inspiravam junto ao espelho perante uma avant-première, enquanto os olhos fundos e barba imaculada de Sean Connery me arrancavam arrepios da pele junto ao olhar de Kelly. Do outro lado do quarto, próximo à mesinha de estudos, Cary Grant e Joan Fontaine emolduravam carisma e bom-humor de se arrancar algumas palavras de sabedoria, algum mantra de felicidade ou até quem sabe, alguma fórmula mágica de sorriso discreto e vida sossegada.
Já Hitchcock, colado à porta do armário, dava boas-vindas aos maus espíritos do lar com ar debochado.
E assim passávamos os meses: descobríamos catálogos, laçávamos amizades — sobretudo na bilheteria —, subornávamos exibidores, criamos repertório guardado a sete chaves em pequenas latas de biscoitos amanteigados.
Éramos reis de nosso reino secreto. Lá todos eram reis, rainhas, príncipes e princesas. Tinham posições definidas, punhos autoritários, votos democráticos, mentiras de estado a resguardar a todo custo — acima de tudo, sobre nós mesmos. De corte, só restavam as bobas, porque o rei sempre fora Alfredinho, principalmente quando naquele verão, chegaram as férias, e as pernas se tornificavam com os passeios de bicicleta e os longos mergulhos na lagoa.
Seus cabelos morenos encaracolavam para o dourado, junto com o mel de seus olhos, confusão áurea de com pelos oxigenados. Parecia um daqueles surfistas de filme havaianos. Em alta, junto aos termómetros da rua e o suor dos banhistas barrigudos. Só lembro daqueles detalhes — Alfredo sempre me pareceu uma múmia — porque os três mosqueteiros tinham marcado uma matinê naquela quinta.
A bem da verdade, foi Jéssica quem deu a ideia. Aparentemente um de seus parentes tinham ganhado um dinheiro na banca — leia-se, jogo do bicho — e o tinha distribuído entre a família, também atingindo a última pedra da cascata, a caçula. E para comemorar a fortuna herdada do sortudo, Jé sugeriu relembrar um clássico de nosso primeiro casinho cinéfilo, só pra espraiar a falta de estreias de janeiro: O bom, o mau e o feio.
Como sempre combinamos de nos encontrar depois da catraca, afinal, aquele pequeno cinema no meio do tédio urbano nos pertencia. Quantas horas, conversas e memórias já tínhamos depositado naqueles bancos desconfortáveis de veludo vermelho? Quantos trocados, favores e acordos tínhamos deixado naquela esquina empoeirada esquecida pelos comerciantes opulentos e industriais desavergonhados. Restávamo-nos uma promessa vaga, mas ainda sim, acesa por detrás daquela tela prateada de sonhos: uma parte, mesmo que pequena do Complexo Max, também nos pertencia.
Por isso, já atrasada pra sessão das 19h, entrei pela saída de incêndio como outro dia qualquer. Contudo, quando fui arrematando o zigue-zague das escadas de madeira, veio a surpresa:
Corredores vazios, bilheterias sombrias, salas fantasmas.
Seu Constantino, dono do cinema, saltando da escuridão, me cutuca pelas costas, como se alarmado com a minha presença:
—Ué, menina! Os dois não te avisaram que hoje os minino’ iam pintar as salas?
imagem: creative commons