Fotografia da minha autoria

«A descrença na religião e a necessidade de seguir alguém cegamente»

Avisos de Conteúdo: Violência Doméstica, Suicídio, Consumo de Drogas, Violação

A premissa, o facto de ser de uma jovem autora portuguesa e a forte recomendação de João Tordo deixaram-me intrigada com o livro de Maria Francisca Gama, mas confesso que não me marcou como esperava.

O CERTO, O ERRADO E A FÉ

A Profeta tem uma missão muito clara: eliminar todo o mal que existe no mundo. Para tal, depende daqueles que a procuram, de forma inocente, e que foram vítimas de alguém, atribuindo-lhe um poder que a eleva. Na trivialidade dos seus dias, Mariana é uma mulher solitária, desagradada com o seu emprego e que passa a vida a ler um livro misterioso. Por oposição, ganha propósito graças à legião «que jura segui-la para sempre».

«A vida não é feita para aqueles que, quando chega a sua hora, 

atrasam propositadamente o relógio com que adornam o pulso»

Achei mesmo interessante o debate que potencia, afinal, as nossas ações nunca são lineares, há várias áreas cinzentas a moldar aquilo que fazemos e o modo como reagimos. Portanto, num plano em que a vingança, camuflada num aparente sentido de justiça, é a palavra de ordem, penso que é uma obra que expõe dualidades e que nos obriga a questionar a nossa moralidade: até que ponto não aceitaríamos condições similares, se tivéssemos vivido (ou estivéssemos a viver) os mesmos problemas, a sentir as mesmas dores?

«Não me lembro do que senti, mas sei que, nessa noite, quando já nada dele lá permanecia, 

e a casa era finalmente minha, só minha, receei ter medo da solidão»

Por outro lado, precisava de compreender melhor as motivações da protagonista, de saber o que a trouxe a esta realidade, em que parte da sua encruzilhada assumiu esta vida para si. Não me custou nada acreditar em Mariana, pelo contrário, acho que é um retrato fiel de alguém egoísta e manipulador com quem nos poderíamos cruzar, mas já tive mais dificuldade em aceitar a facilidade com que bebiam as suas palavras. Em momentos de extremo sofrimento, procuramos por aquilo que nos dê mais paz, independentemente de ser questionável ou não, só que isso não deixa de ter consequências. E esse vazio distanciou-me da narrativa.

«Um bom livro dá-nos muito mais do que aquilo que demos por ele»

Creio que é um livro com potencial, quer pelas constantes reflexões que proporciona, quer pela diversidade de histórias e contextos. No entanto, precisava que algumas partes tivessem uma contextualização maior, coesa.

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