Madame K - Lilia, você é jornalista, psicóloga e roteirista, além de escritora de literatura infantojuvenil. Como essas diferentes formações e experiências se cruzam em sua escrita? De que modo sua vivência clínica influencia na construção de personagens ou temas?
Lilia Gramacho - A minha trajetória profissional não foi linear. Fiz jornalismo, trabalhei muitos anos em publicidade, depois no audiovisual e fiz uma transição de carreira para a área de psicologia. Durante muito tempo me perguntei qual o ponto de intercessão entre esses campos. E a conclusão foi a seguinte: as histórias. Cada uma dessas áreas tem um jeito de contar histórias. O espaço clínico é essencialmente um espaço narrativo. Cada paciente traz consigo a sua história, está fixado na sua ficção, e o espaço da análise é onde escrevemos uma nova história, criamos novas ficções.
O espaço analítico, portanto, é um espaço literário. Essa vivência clínica me inspira e alimenta o meu desejo de escrever, apesar de me sentir muito mais leitora, tanto de livros como de pessoas, sou encharcada de histórias de vida que dariam belos romances.
MK - Em seu livro, “O Filho do Meio”, vemos um olhar sobre a família sob a ótica de quem ocupa uma posição intermediária. O que te motivou a explorar esse tipo de perspectiva, que é ao mesmo tempo comum e pouco representada?
LG - Essa história nasce em parte por uma proximidade familiar, já que sou filha do meio. Mas não só. Certa vez, fiz um trabalho com um grupo de crianças e ouvi de um delas, um relato muito próximo do livro. Um menino se queixava dos irmãos. Uma queixa muito comum daqueles que ocupam o espaço intermediário: era grande demais para muitas coisas, e pequeno demais para tantas outras. Esse lugar intermediário também é vivido em algumas fases da vida, como a adolescência, por exemplo. Não adulto, não é criança. O filho do Meio, portanto, é o que está entre. Influenciadmuitas vezes espremido entre dois lados.
MK - “Camila e o Espelho” trata de mudanças da pré-adolescência, corpo, identidade, espelho. Como você decide quais temas do universo infantil ou juvenil vale a pena abordar, especialmente os mais sensíveis ou íntimos?
MK - Sou muito movida pela palavra, pelo ritmo do texto. Estudo muito processos de criação e me identifico muito com autores que se dizem guiar por algo que não sabem. Exemplos como de Jorge Amado, Rudyard Kipling, Stephen King ou Rosa Monteiro, quando diz que escreve meio na escuridão, sem mapa, sem bússola, um estado à deriva, onde o texto vai se apresentando. E depois, leitura e re-escrita. Gosto de escrever sempre temas que estão vinculado as questões mais íntimas, existenciais e cotidianas da vida comum. Mas é o texto que revela o tema, não o contrário.
MK - Você já teve obras selecionadas para adaptações audiovisuais, venceu editais para curta-metragem, já lançou áudio-livro. Como foi para você transpor seus textos para essas mídias? Quais desafios e descobertas encontrou nesse processo?
LG - As adaptações tanto para o teatro, quanto para o audiovisual foram experiências riquíssimas. A primeira coisa mais interessante é que a escrita é um processo muito individual, enquanto o teatro e o cinema são profundamente coletivos. Portanto, eu era parte de um processo, muitas vezes espectadora deste processo, extremamente prazeroso, de ver aquela história ganhando outros olhares, outras ênfases, e um corpo completamente re-imaginado. Cada um desses projetos, livro, teatro, cinema, carregou a sua singularidade a partir da sua linguagem. Foi um grande aprendizado.
MK - Qual é seu processo de pesquisa ou preparação antes de começar a escrever um livro pensado para crianças ou pré-adolescentes? Você conversa com esse público, recolhe relatos, observa espaços de convivência?
LG - Os meus filhos cresceram, e ando muito distante desse público e até mesmo da escrita infantil. Na verdade, eu ando namorando a ideia de escrever para adultos. Mas a chegada de um neto, tem me feito voltar a ler literatura infantil e me deixar aberta para, quem sabe, ser tomada por alguma ideia, algum texto, algo que me provoque. Não costumo, nem me interessa, escrever com qualquer propósito didático. Me interessa a história. E ao leitor caberá todo resto, seja de que idade ele for.
Sou do tipo que gosta de pegar nos livros, abraçar, cheirar, folhear. Até hoje não me adaptei a suportes como o Kindle. Porque sou fascinada com livro enquanto objeto. Capa, espessura, ilustração, textura do papel, tudo isso compõe um corpo. E todo corpo carrega uma história.
MK - Em sua obra infanto-juvenil, como você enxerga o papel da ilustração, do suporte físico do livro, e da linguagem visual, na interação leitura-criança? Como isso afeta sua escrita?
LG - Vejo o ilustrador como um coautor. Alguém que acrescenta outras camadas de sentidos à história. E no caso da literatura infantil isso me parece fundamental. Uma ilustração que não legende a história, mas que amplie sua dimensão. Mesmo para o adulto, acho o projeto editorial fundamental. Sou do tipo que gosta de pegar nos livros, abraçar, cheirar, folhear. Até hoje não me adaptei a suportes como o Kindle. Porque sou fascinada com livro enquanto objeto. Capa, espessura, ilustração, textura do papel, tudo isso compõe um corpo. E todo corpo carrega uma história.
MK - Como jornalista, você presenciou transformações midiáticas importantes. Você sente que o comportamento dos leitores mais novos mudou bastante nos últimos anos (com redes sociais, telas, vídeos, dispositivos)? Isso altera sua forma de escrever ou planejar seus livros?
LG - Quando penso em escrever, tento me distanciar muito do que sejam as orientações do mercado consumidor. Como psicóloga, acredito na força das narrativas, especialmente aquelas que trazem temas arquetípicos, ou seja, histórias que tocam a alma porque refletem os grandes temas da humanidade. É claro que as rede sociais, que fomenta uma hiper estimulação e uma baixa concentração, dificulta a produção de leitores. Os suportes para leitura podem ser vários, mas certamente precisaremos mais do que três segundos para nos deixarmos tocar por algum boa narrativa. Recentemente o Brasil perdeu milhões de leitores, mesmo com tantas festas literárias, mesmo com tanta produção de qualidade na literatura brasileira. Isso é muito triste. Porque a literatura é profilática ao possibilitar nos aproximar de muitas realidades através do faz de conta.
Quando penso em escrever, tento me distanciar muito do que sejam as orientações do mercado consumidor. Como psicóloga, acredito na força das narrativas, especialmente aquelas que trazem temas arquetípicos, ou seja, histórias que tocam a alma porque refletem os grandes temas da humanidade.
Como digo no meu livro, os escritores dizem verdades enquanto mentem. A literatura, portanto, nos torna mais empáticos, e mais preparados para viver a nossa própria biografia. O trágico do mundo hoje, é que estamos vendo um mundo perdendo a sua capacidade de simbolizar. E aí, vamos ao ato.
MK - A literatura infantil/juvenil também está muito envolvida com educação formal: escolas, bibliotecas, currículos — e com políticas culturais. Como você vê o papel dessas instituições — e como sua obra dialoga ou contribui nesse âmbito?
LG - Acho que todos os lugares que estimulem a formação de leitores importantíssimo. As escolas têm um papel fundamental por ser um ambiente que pode aproximar a criança ou o jovem da experiência da leitura, desde que o faça constituído uma experiencia de prazer. O mesmo vale para as bibliotecas que podem ser promotores da acessibilidade ao livro, mas para isso tem que ser um espaço vivo, onde coisas acontecem, assim como as festas literárias, teatro, música. Na Holanda há a biblioteca do bebê. Quando a criança nasce ela é inscrita na biblioteca do bairro, onde recebe um kit de livros e uma carteirinha de identidade de leitor. A arte é revolucionária porque nos apresenta outras possibilidades de mundo e de pensar o mundo. Políticas culturais que incentivem, viabilizem, aproximem as crianças destas práticas são eixos catalisadores significativos para a construção de sujeitos e cidadanias.
MK - Que autores infantis ou juvenis, nacionais ou internacionais, provocaram você ou influenciaram sua forma de escrever? Quais obras te marcaram quando criança ou quando você começou a escrever para esse público?
LG - Acho que quase toda a minha geração foi encantada pelas aventuras de Emília, e a obra de Monteiro Lobato. O Sítio do Pica-pau Amarelo é de uma inventividade incrível. E, com todas as ressalvas que a leitura contemporânea desta obra precisa destacar , continua sendo uma grande obra literária infantil . Li e tenho a coleção de capa verde e dura. Mas, para falar a verdade, a minha maior influência literária se deu com outra grande obra: a coleção Vagalume. Até hoje, me recordo com carinho, de livros como: A Ilha Perdida, a montanha mágica, O Caso da Borboleta Atíria, O Escaravelho do Diabo, entre outros. Depois foram chegando outras aventuras como Gulliver, Mob Dick, Gulliver e as aventuras de Robinson Crusoé, esses clássicos que ainda tem muito a nos dizer.
MK - Você costuma pensar nos leitores enquanto escreve (por exemplo: “quem vai ler isto?”, “como quero que se sintam?”)? Qual a mensagem ou sentimento que você mais espera que seus leitores – sejam crianças, pais, professores – levem ao terminar de ler seus livros?
LG - Não. Na verdade, como não tenho a literatura como ofício, mas apenas como um lugar de apaixonamento e de encanto, não escrevo com nenhuma intenção ao arranjo mercadológico. Seja no aspecto de recorte de público, de tema ou até mesmo com relação a periodicidade com que escrevo. Às vezes em que meus escritos ganharam independência e mundo, os recortes sobre essas definições sempre vieram posteriormente, através das editoras, a partir do texto.
(…) como não tenho a literatura como ofício, mas apenas como um lugar de apaixonamento e de encanto, não escrevo com nenhuma intenção ao arranjo mercadológico. Seja no aspecto de recorte de público, de tema ou até mesmo com relação a periodicidade com que escrevo.
Quanto à mensagem, acho que todo escritor deseja ser lido, e ao ser lido, que sua obra toque, emocione, provoque reflexão ou simplesmente algum prazer. Gosto muito de contar um episódio que ilustra bastante isso que eu estou dizendo. Uma vez, recebi o e-mail de uma menina que morava no Rio Grande do Sul, com a seguinte pergunta: Lilia, você me conhece? Ela tinha acabado de ler Camila e o Espelho, e disse ter se identificado tanto com a personagem, que a fez pensar que eu tinha escrito o livro inspirado nela. Tem coisa mais linda que essa?



