Postagem rápida, quase encerrando o ano.
Duas descrições não saem da minha cabeça. A descrição literária é uma arte que se encontra em desuso: para ser eficiente, precisa ser reduzida. Para ser reduzida e caber a integralidade da imagem, é imprescindível que ela seja exata. No livro do Gabriel Garcia Márquez, “Como contar um conto” (que emprestei para alguém e ainda não voltou, ou seja, perspectivas negras, em especial por que não lembro para quem emprestei), ele diz que são os detalhes que conferem concretude à imagem. Inesquecível o exemplo usado, em que ele fala de uma mulher em um enterro, vestido negro, véu cobrindo o rosto e um escandalosa flor vermelha apregada na blusa. A flor vermelha deu carne e substância para a mulher, cuja descrição passaria despercebida se não fosse o detalhe.
Primeira descrição, encontrada em “Mundo animal”, do Antonio Di Benedetto:
- “Era um homem, um homem de presença inexplicável”.
Ele está descrevendo um ladrão. Genial o uso da expressão “presença inexplicável”, pois não existe nada mais sintomático do que abrir a porta de casa e ver uma pessoa de presença inexplicável no seu interior. Como explicar isto, já que não é um fantasma (posto que é homem), se não for concluir que um ladrão está no interior da casa? Em seguida, o autor argentino refere que aquele homem irá lhe retirar a possibilidade de voltar a ver o céu azul na vida. Outro genial eufemismo para “ladrão”, com uma pitada de “assassino”.
A segunda descrição está em um conto de Julio Cortázar:
- “(…) aquela sensação de não estar de todo”.
Esta descrição de um estado de espírito me fascina há muitos anos. Como pode alguém se sentir tão incompleto a ponto de imaginar que não está integralmente no local? Esta é uma impossibilidade física. No entanto, Cortázar refere que a pessoa está em um determinado local, mas parte dela está faltando. Qual seria esta parte? A ausência desta parte deixa o sujeito incompleto? Só quem já se sentiu deslocado ou desconfortável pode saber, de forma exata, como é a sensação nela descrita. Mais genial ainda que esta descrição se encaixa em várias situações.
São duas descrições que conseguem dizer um mundo com pouquíssimas palavras.


Publicado por Gustavo
Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo