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Jan24

Maria do Rosário Pedreira

Este é um tempo de falarmos de saúde mental (tanto jovem a tomar antidepressivos não pode ser normal...) e o romance As Herdeiras, da escritora basca Aixa de la Cruz, fala-nos justamente disso. Passaram seis meses desde que Dona Carmen cortou os pulsos na banheira, e ainda ninguém percebeu porquê, tendo ao seu alcance comprimidos suficientes para acabar com a vida de modo mais suave. Isto descobrem, intrigadas, as suas quatro netas – Lis, Erica, Olivia e Nora – quando se instalam na casa da aldeia onde a avó vivia e que lhes foi deixada em testamento. Lis, que tem um filho pequeno, está ainda a recuperar de um trauma que sofreu ali dentro e só lhe interessa vender tudo e seguir em frente, enquanto a sua sonhadora irmã Erica planeia organizar no local retiros espirituais e passeios na natureza. Por sua vez, Olivia – a prima mais velha, que se formou em medicina por ter visto o pai morrer com um enfarte – não desiste de procurar em tudo o que é gaveta uma pista que explique o que realmente levou a avó a suicidar-se; e Nora, a sua desastrosa irmã, tem a ideia maluca de deixar o seu dealer usar o espaço como depósito de «mercadoria»; de resto, é ela quem a dada altura diz sem complacência: «Parece que um suicídio na família con­firma a suspeita de sempre, de que a loucura corre nos genes, de que estamos biblicamente perdidas.» Considerada internacionalmente uma digna sucessora de Henry James, Aixa de la Cruz constrói neste romance intenso e dramático – considerado um dos melhores livros de 2022 pelo jornal El País – a ideia da família como lugar de dissensão e calamidade, explorando a ténue fronteira que existe entre loucura e sanidade. Não deixem de ler, inesperado e muito actual.

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