Rafael de Andrade

Já não lembro qual foi a última vez que senti o efeito em minha consciência, mesmo com o bombardeio consistente de tóxicos e o cansaço que essa hora da noite merece. Enquanto meu corpo já se torna teimoso e desobediente, minha mente permanece clara.

Dolorosamente clara.

Escuto um irmão cuspir sangue em uma poça de chuva em um fumódromo bem iluminado:

– Quanto mais as coisas mudam, mais elas parecem as mesmas, certo? – pronuncia em meia-voz, o tolo que cruza os braços e destrói a própria vida, justificando mais uma tragada de um cigarro imundo.

Está frio aqui fora, mas é bom.

É o que a vida promete, certo? Contrastes. O frio lá fora e a fumaça quente entrando…

É patético. Esta é a verdade.

Qual é a necessidade disso, minha gente?

Você pensa: vamos! Vamos experimentar essa alegria. Descobrir as coisas boas da vida. Mas isso se revela inútil. Você conclui: rir é loucura e a alegria de nada vale.

“É correr atrás do vento”. Pau no cu de seja lá quem escreveu Eclesiastes. Um homem teve uma dúvida há quatro mil anos e eu não consegui resolver pra ele. Qual é? Saímos do lugar desde que aprendemos a dar nome às coisas?

– Ei, eu contei pra você da vez do acidente, né? – recomeçou – Por um segundo ali, achei que ia morrer. Fiquei desesperado, com o fogo e tudo. É um momento que aterroriza. Nunca tinha visto a morte como algo ruim até ela chegar muito perto. Não existem ateus na trincheira, certo?

Você tá certíssimo, amigão. Somos bípedes sem pena e não sabemos de nada.

– Vamos voltar lá pra dentro – resolvi e me retirei. Não estou no humor pra lidar com a depressão ébria do amiguinho.

Que lugarzinho detestável. Cheio de gente velha e acabada. Por que viemos invadir a praia deles? A porra da semana inteira deles se resume a vir pra cá, ficar torto e esquecer que vão morrer em breve.

Ah, mas não. Somos jovens e lindos. Cheios de vida e querendo explorar! Ai, que gostoso, que delícia é ouvir outro irmão dizer:

– …e um homem sem libido é um morto que anda!

Hum, que agradável é saber que é um pedaço de carne que vai te segurar até o fim. É o que temos de bonito pra hoje, não? A perspectiva de perder isso não te incomoda?

Então entro no banheiro e começo a escrever.

Ninguém jamais poderia dizer quanto conteúdo já surgiu em um banheiro. Quero dizer, algumas pessoas nem se controlam e saem escrevendo pelas paredes.

Somos animais limitadíssimos. Pequenos ratos assustados com a súbita consciência de nós mesmos e do mundo que nos cerca. Existir é uma responsabilidade enorme agora. A evolução foi constatar que há algo além do aqui e do agora.

Não é à toa toda depressão, todo horror. É a invenção de ter que achar um lugar no mundo, de descrevê-lo e a s si mesmo, sendo irreparavelmente finito, pequeno e impotente, diferente do que nossa consciência indica que o universo e a razão podem ser. Eternos e infinitos. Só nos é permitido restar com a miséria. Nós somos o acidente bizarro do terrível e incomumente quieto laboratório do cosmo.

Tenho visto o fardo que Deus impôs aos homens.

Ele fez tudo apropriado a seu tempo. Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade; mesmo assim este não consegue compreender inteiramente o que Deus fez.

Isso não é uma nota de suicídio. É a descrição de desarmonia das coisas e desconexão total de uma vida inconsciente. É o relatório da dor de saber que somos feitos tal qual moldes, inexplicavelmente circulares e infinitamente deceptivos de que são flexíveis.

Somos acidentes.

Estamos acontecendo.

Quanto menos você pode saber, melhor. Pois quanto maior a sabedoria maior o sofrimento; e quanto maior o conhecimento, maior o desgosto.