Ms. Marvel, Vol. 1: Fora do Normal

Não sou particularmente bem versada no que respeita a super-heróis.


Nunca lera nada da Marvel, nunca li nada da DC, vi vários filmes do Batman (que adoro) e sinto que a minha experiência se pode resumir a isto. Pesquisei um pouco antes de me dedicar a Ms. Marvel, tendo partido para esta leitura com entusiasmo. Pelo que compreendi, houve outrora uma outra Ms. Marvel, Carol Danvers, que se estabeleceu como Captain Marvel, abrindo assim a "vaga" a Kamala Khan, uma adolescente de origem paquistanesa a viver nos Estados Unidos, que idolatrava Carol Danvers.

Algumas coisas a destacar: mesmo sendo um livro de super-heróis, é também um livro sobre Kamala; e mesmo para quem, como eu, se admite leiga neste mundo, é um livro de muito fácil leitura. Transparece que o universo é maior que aquele mostrado, mas ao mesmo tempo, sendo acima de tudo a história de Kamala Khan, não extrapola particularmente para lá da vida íntima da protagonista.

Também de destaque são as relações de Kamala com os amigos (o Bruno!) ou as pessoas da sua escola e família. Muçulmana, filha de imigrantes que não a deixam ir a festas e facilmente a metem de castigo... ela deseja apenas uma vida normal - aos olhos "americanizados" de quem já cresceu neste país - e não consegue chegar às elevadas expectativas dos pais.

 

Kamala Khan é uma adolescente normalíssima e é, por isso, muito fácil relacionarmo-nos com ela, mesmo sem o background paquistanês que tanto a apoquenta e limita. Não é uma heroína típica, porque é uma adolescente normal (que, por acaso, escreve fanfic sobre heróis da Marvel!) que não percebe o que lhe está a acontecer. Este livro é sobre a origem dos seus poderes, mas não é uma origem "normal" - Kamala não percebe o que se passa, nem sabe o que fazer com os seus novos poderes. O que lhe acontece não é, também, normal; parece que apenas estava no local certo, à hora certa.

Mas talvez "normal" não exista.

Kamala tem agora de lidar com os seus novos poderes, com o seu novo título de super-heroína, e tenta conjugar isto com a sua vida quotidiana. Os seus poderes, neste momento, parecem um pouco ilimitados. Mudar de forma (shapeshifting), aumentar ou diminuir... e tenta imediatamente assemelhar-se a Carol Danvers. Talvez porque Carol era loura, comum, o tipo de pessoa que encaixava, e Kamala sente-se desconfortável e quer mudar de aspecto. Mas, de repente, encaixar é o menor dos seus problemas...

É genuíno, real. Mesmo para quem não partilhe da sua ascendência, pois os problemas levantados são interessantes e pertinentes.

Possivelmente a capacidade de gostar deste livro prende-se com a capacidade do leitor em gostar da protagonista. Pessoalmente, adorei tanto Kamala como o debate que ela abre acerca de temas como diversidade e cultura, bem como a sua capacidade de atrair mais raparigas para este tipo de literatura. É de notar, também, o facto de Kamala ser muçulmana: mais do que a religião em si, o foco aqui é o modo como ela se sente incompreendida e diferente dos outros.

Entretanto, a arte (extremamente importante neste tipo de livro) é expressiva, colorida, apelativa, acompanhando perfeitamente a narrativa, apoiando questões como a falta de "cobertura" do fato de Carol Danvers, incompatível com a cultura paquistanesa.

Quero imenso ler mais da série, até porque este volume em particular termina em aberto, antecipando coisas maiores, mais importantes. Belíssimo começo - o nascimento de uma nova heroína. Para quando o próximo, G Floy?

5/5

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