Resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 7 de dezembro de 1999, prosseguindo uma série, que começara com  A barca dos homens, em 23 de novembro, e depois Ópera dos Mortos, em 30 de novembro:

https://armonte.wordpress.com/2012/09/30/a-nau-dos-insensatos-de-autran-dourado/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/30/antigona-perdida-na-%E2%80%9Ccidadezinha-qualquer%E2%80%9D/

Este artigo encerra a pequena série de comentários sobre a reedição que a Rocco está fazendo da obra de Autran Dourado. Deixei por último meu livro favorito do grande escritor mineiro, O risco do bordado (1970), peculiar exemplo do romance de formação (aquele tipo de romance que narra o desenvolvimento da personalidade do protagonista e que o mesmo Dourado exercitaria tão mal no posterior Um artista aprendiz, de 1989), estruturado através de blocos narrativos (sete) meio independentes entre si.

O personagem cuja formação acompanhamos (meio enviesadamente, ou de forma menos pedante, meio de esguelha) em O risco do bordado é João da Fonseca Nogueira, alter ego de Autran Dourado, que já havia aparecido no lindo conto Inventário do Primeiro Dia (presentemente fazendo parte de Solidão Solitude, que já fora antes Nove histórias em grupos de três em 1957), e que vem substituir o alter ego negativo que era Ismael, protagonista de Tempo de amar (1952).Para ficar mais claro: Ismael era aquele que, embora sufocado pela estreiteza do meio provinciano, não conseguia dar o passo decisivo, ir embora. Mais tarde, Dourado fará com que ele se mude para sua simbólica cidadezinha de Duas Pontes, onde continuará a sua fracassada existência como escrivão.

E é Ismael quem fornecerá várias informações a João sobre o avesso das vidas dos habitantes de Duas Pontes (geralmente, quando se encontram no bordel do lugarejo, a Casa da Ponte)[1]. Aliás, a construção em blocos de O risco do bordado, cada bloco representando um texto fechado em si mesmo, e ao mesmo tempo um fragmento de uma história maior, prenuncia o método narrativo tardio de Autran Dourado: cada conto ou romance seu parece a um só tempo uma obra acabada e um fragmento, uma variação de uma história que só será completada ao término do derradeiro livro.

O que diferencia João da Fonseca Nogueira do malfadado Ismael é o seu êxito em romper com o mundo provinciano e realmente transformar-se num escritor, embora retorne muitos anos mais tarde para recolher informações (em O risco do bordado quem ele procura para obter essas informações é o dr. Alcebíades, médico da família). É esse o papel estratégico que João mantém nas fabulosas coletâneas de contos como As imaginações pecaminosas (1981) ou Violetas e caracóis (1987) ou em romances como Ópera dos Fantoches (1995). É a sua curiosidade em saber o que houve de fato que movimenta as diversas versões que configuram as narrativas.

Entretanto, isso diz respeito ao desenvolvimento da obra douradiana. No momento específico de O risco do bordado mergulhamos na história familiar de João, ao mesmo tempo em que se narram episódios fundamentais e iniciáticos da sua adolescência, tais como aprimeira vez em que ele entra na Casa da Ponte (embora seja para entregar sapatos para “as meninas”) com seu camarada Zito, a sua paixão pela artista de circo Valentina, o episódio incestuoso com a tia, Margarida, a qual, depois, se converte em fanática religiosa, e, finalmente, a sua auto-descoberta como escritor, quando começa a compor cartas imaginárias, reinventando episódios como a interminável agonia do tio-avô brigado com a família, Maximiano.

Com relação aos primórdios da história da família de João, o estilo de Autran Dourado chega ao auge do brilhantismo. Pela maneira como são narradas as brigas familiares, as guerras conjugais, a loucura e o suicídio de um tio, nós vamos percebendo que, na verdade, há um diálogo entre as várias vozes embutido no texto, isto é, as pessoas foram contando para João ao longo de vários anos da sua infância, e, ao resgatar essas histórias (com forte teor bíblico) na sua narrativa, as marcas das vozes dessas pessoas (o avô, por exemplo, no extraordinário bloco intitulado Assunto de família) aprofundam o relato. E também aprofundam a atmosfera geral de culpa, transmitida de geração para geração da família até atingir o narrador, João, depositário dessa culpa. É um pouco como o poema de Drummond, Comunhão:

“Todos os meus mortos estavam de pé, em círculo,

eu no centro.

Nenhum tinha rosto. Eram reconhecíveis

pela expressão corporal e pelo que diziam

no silêncio de suas roupas além da moda

e de tecidos; roupa não anunciadas

nem vendidas.

Nenhum tinha rosto. O que diziam

escusava resposta

ficava parado, suspenso no salão, objeto

denso, tranqüilo.

Notei um lugar vazio na roda.

Lentamente fui ocupá-lo.

Surgiram todos os rostos, iluminados.”

Ao ocupar seu lugar na ciranda da culpa familiar, João faz surgir todos os rostos iluminados pela sua narrativa. Mas só Deus é quem conhece o risco desse bordado.

VER TAMBÉM NO BLOG:

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[1]Mas esses colóquios Ismael-João não pertencem a O risco do bordado, são prolongamentos posteriores da ficção de Dourado.