TUA BOCA

Cheguei! Não me esperavas. A surpreza

Accendeu a alegria em teu semblante;

Do teu trajo caseiro a singeleza

Tornava-te mais bella e fascinante.

Confundida ficaste, no entretanto,

Porque te achei num casto desalinho;

E eu contemplava cada novo encanto

Que tinhas no aconchego do teu ninho.

Sahiste um pouco, e então, no quarto, ao lado,

Senti que um frasco de crystal abrias.

Teu cabello, ao voltares, mais cuidado

Estava, e um fino aroma rescendias.

Pedir a rosa olor ao jasmineiro!

Pois foi o que fizeste, minha louca,

Como se houvesse, por ventura, um cheiro

Mais agradavel que o da tua boca!

Janeiro – 17 – 1888.

Valentim Magalhães - Rimas de Amor. In: Rimário (1878 – 1899), Paris, Aillud & Cia. Editores, 1900. (pág. 71) - Poeta Parnasiano nascido em 16 de janeiro de 1859 e falecido em 17 de maio de 1903. Jornalista e Escritor foi um dos fundadores da ABL (Academia Brasileira de Letras), tendo participado da “Batalha do Parnaso”, uma reação contra o romantismo literário. Sua obra mais conhecida foi o romance: Flor de Sangue, escrito em 1897.