Ao regressar a casa depois da escola, um menino de oito anos vê a sua primeira vítima assassinada pela Máfia, enquanto as bolas dos colegas batem nas persianas fechadas e os cromos de futebol passam de mão em mão. Esses «encontros» acabam por tornar-se quase banais – e é só como adolescente que descobre, em conversa com um colega que foi a Londres, que as mortes da Cosa Nostra são um exclusivo da cidade onde cresceu. Num passeio organizado pelo professor de Religião e Moral, decide então escrever as suas instruções para sobreviver a Palermo e entrega-as ao padre que, pouco depois, acabará morto com um tiro na nuca. No ano em que faz os exames de admissão à universidade, fica sozinho na cidade e a família, de férias nas Dolomitas, sabe do homicídio de um juiz cuja vivenda fica em frente da sua e apanha o maior suto da sua vida. Davide Enia conta-se a si próprio neste texto belíssimo, Autorretrato: Instruções para Sobreviver à Máfia, que já foi levado à cena no seu país e no qual ele empresta a voz a três investigadores policiais que, como uma obsessão, uma vocação, um dever, lutaram e derrotaram o braço armado da Máfia. As suas palavras correm por estas páginas como pelas ruas e vielas de uma cidade tão acostumada ao silêncio quanto ao rugido das bombas e onde o reflexo numa poça de sangue é o seu autorretrato. Notável livrinho traduzido por Ana Maria Pereirinha do autor do igualmente maravilhoso Notas para Um Naugfrágio, sobre os desembarques de migrantes em Lampedusa.
