Fotografia da minha autoria

«Restará alguém para, um dia, contar o que, de facto,

se passou naquela ilha?»

O meu ritmo de leitura não tem privilegiado um dos géneros literários que eu mais aprecio: os policiais. E se há autora que tem todo o meu coração, mesmo que ainda não tenha lido muitas das suas obras, é Agatha Christie, conhecida como a rainha do crime. Porque a sua escrita e o modo como estrutura o enredo são absolutamente viciantes.

«- Este trabalho não deve apresentar dificuldade nenhuma - 

ruminou. - Não vejo onde possa meter água» [p:16]

As Dez Figuras Negras tem contornos misteriosos. O que se percebe com facilidade a partir do momento em que dez estranhos, sem qualquer aparente ligação entre si, são convidados para pernoitar numa mansão, situada numa ilha da Costa de Devon. E o próprio local é palco de uma carga de tensão surpreendente e palpável, atendendo a que é isolado e bastante sombrio. Além do mais, há uma série de comportamentos imprevisíveis, que nos levam a desconfiar de todos os intervenientes. Portanto, rapidamente compreenderemos que nada é o que parece ser.

«Se a casa fosse antiga, com a madeira a ranger, sombras tétricas 

e paredes de painéis pesados, talvez a sensação fosse arrepiante. 

Mas a casa era o supra-sumo da modernidade» [p:55]

Uma das características mais entusiasmantes deste género de narrativas é o convite implícito ao leitor. Porque somos instigados a conjeturar. A interpretar sinais. A construir uma linha temporal. E, até, a elencar um conjunto de motivações para a ocorrência do crime. E neste thriller alucinante, com uma forte componente psicológica, somos confrontados com mortes sem explicação, que têm apenas um elo a uni-las: a letra de uma canção de embalar. Perante semelhante cenário, aumenta o medo e o desconforto. E o desenrolar da ação chega a ser asfixiante, porque sentimo-nos perdidos, sobretudo, por escassearem as provas e a certeza de se estar mais perto de encontrar o culpado.

«E foi nesse momento, enquanto ali estavam, que ouviram o som vindo de cima. Um som de passos suaves e furtivos sobre eles» [p:89]

O traço sinistro que paira nesta história faz com que embarquemos numa viagem mortificante, na qual as vítimas permanecem encurraladas, mas o agressor assume um caráter omnipresente. E isso abre-nos uma porta de questões sucessivas, pois parece impossível - e surreal - que os protagonistas não sejam capazes de se movimentar sem serem detetados, mas o criminoso possua esse poder. Para aprofundar a desconfiança, vamos descobrindo que todos guardam segredos questionáveis. E que as circunstâncias não deixam de revelar uma estranha forma de justiça.

«A partir de agora, é nosso dever suspeitar de todos os outros. 

Homem prevenido vale por dois. Não corram riscos...» [p:108]

As Dez Figuras Negras é uma história original. Imprevisível. E genial, uma vez que retrata aquele que pode ser denominado como um crime perfeito, apresentando-nos um final desconcertante. E é por essa razão que o livro se torna tão emocionante do início ao fim, inquietando-nos com os seus detalhes subtis. Porém, nunca desprovidos de intenção.

«E estava alguém no quarto... ela ouvira um ruído... 

não tinha dúvida de que ouvira um ruído» [p:140]

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