O leitor no caso de não poder enxergar no relato a seguir essa importância, que muitas vezes é esperada quando acontece de alguém contar uma história, como uma certa forma de justificar o interesse que mereceria aquele causo

Bruno Pernambuco

Em primeira ordem- apesar de que minha vontade seria de não fazê-lo em absoluto;  de apresentar simplesmente ao leitor um texto e dizer “está aqui; é como é”, e com isso calar-me, e deixar apenas que o leitor sinta aquelas sensações que lhe ocorrem, dizendo, então, implicitamente, que se trata simplesmente de um efeito natural da leitura, e que aquilo que o leitor sentiu é precisamente o que havia sido pensado, ou então se é um efeito tão confuso que de fato não seria possível que fosse ação deliberada do autor constituir uma história dessa forma, então que é certamente a sua compreensão que se engana, e a qual precisaria demorar-se mais na leitura dessa história, para que pudesse então compreender aquilo que está sendo dito- a consciência me obriga a alertar de antemão que o relato a seguir é, por tratar apenas da luz de uma chama pequena, e sendo essa a que lhe é importante, mais que qualquer outra fonte, mesmo de luz elétrica, bastante mal iluminado, e que, sendo esse o caso, e sendo as descrições a seguir tal como são, o leitor possa sentir que ele atenta também contra os outros sentidos, principalmente visto que em nenhum deles sou especialmente capaz, e assim podem passar despercebidos à minha sensibilidade alguns erros que o leitor perceberá de imediato.

Assim me sinto forçado a explicar esses pormenores toda vez que vou contar aquela velha história sobre o isqueiro- a qual, devo também acrescentar, não é particularmente interessante, e é para mim importante precaver o leitor para que não pense erroneamente que se trata de algum acontecimento muito importante. De fato, essa história conta não mais que uma feita de teor estritamente pessoal, e assim pertence muito mais a um reino da memória, em que o peso dos acontecidos é julgado de outra forma, tal que aquilo que nesse espectro é dotado de grande importância, e tem sua lembrança vivida repetidas vezes e com intensos detalhes, não diz necessariamente respeito àquilo que mais fortemente influiu no rumo da história, nem ao que efetivamente um maior contingente afetou, ou que terá um transformado uma quantidade objetiva de vidas maior; assim que não se preocupe o leitor no caso de não poder enxergar no relato a seguir essa importância, que muitas vezes é esperada quando acontece de alguém contar uma história, como uma certa forma de justificar o interesse que mereceria aquele causo, e tenha certeza que a ausência dessa presumida importância não resulta de nenhum erro de compreensão seu, e que ela decorre inteiramente de mim, e da natureza que tem essa história para a minha pessoa- o que, acredito, também, por se tratar de um relato tão próximo, que descreve sensações e acontecimentos rigorosamente íntimos, escusa também aqueles meus erros, certamente numerosos, que podem acontecer na descrição ou na explicação dos acontecimentos por decorrência da emoção que provoca em mim noticiar essa lembrança.

Assim considero de fundamental importância deixar essa advertência prévia, mas de forma que, se forem de seu gosto as formas dessa estória, e se, ao contrário elas lhe aprazerem em vez de ferir os sentidos, então minha introdução terá sido injustificada, e, mais que isso, será danosa, pois se agora admito aqui meus erros é certo que não será difícil, tendo em vista essa nova informação, encontrá-los, se lhe tinham passado na primeira leitura, e assim mais teria valido a pena se eu tivesse seguido em meu plano original, de tão somente apresentar ao leitor o acontecido e deixar que ele então vivesse as suas próprias impressões, sem o meu auxílio para a compreensão das dificuldades que nascem da história e das deficiências da minha escrita; e, se fosse esse o caso, isso poderia ter resultado muito melhor para ambos, caso que o leitor ficaria mais satisfeito em suas percepções iniciais, que mais o teriam alegrado, e eu, de mesma feita, poderia também sentir-me mais orgulhoso com meu trabalho.

De qualquer forma, foi assim que naquela noite, na hora escura da festa, em que eu me apoiava sobre os móveis de mogno e tentava prestar mais atenção à coleção de antiguidades da casa que à conversa e à agitação que tomavam os convidados, ela, com o fumo em mãos, me pediu um isqueiro emprestado, eu lhe entreguei, ela acendeu o cigarro e eu vi a névoa passando por diante da sua face.