
Apaches enfrentam a polícia francesa em 14 de agosto de 1904
Atravessam a vida intensamente, representam uma crise das disciplinas gerais e são um fenômeno social possivelmente gerado, entre outras questões, por uma erupção de frustrações, embates e desgostos pela maneira como a vida tem sido imposta, desta “jaula de ferro do capitalismo”, como dizia Max Weber
Isabella Marzolla
Dos Apaches aos Punks paulistanos
As grandes discussões, acontecimentos e aflições sobre o futuro da democracia, que tumultuaram a semana passada com ameaças institucionais – com direito até a pedido de impeacment do Ministro Alexandre de Moraes – do Presidente Bolsonaro ao Poder Judiciário, de propostas de reformas tributárias e eleitorais, como o Distritão, a tomada de poder pelo Talibã no Afeganistão.
Tumulto administrativo, social, político, econômico, ambiental e sanitário vive-se atualmente no Brasil, um “estresse exaustivo” especialmente para quem acompanha o noticiário diariamente. Por isso, lembrei das pessoas que seguem suas vidas alienadas deste caótico recorrer de eventos da política brasileira e das notícias surreais, que são infelizmente reais.
Mas antes, é importante frisar que há alguns segmentos distintos entre o grupo dos que preferem tocar suas vidas sem envolvimento emocional com o noticiário e a política, e os apoiadores ferrenhos do Presidente, que se informam por uma imprensa — se é que podemos assim chamá-la — paralela à realidade e ultraconservadora. Mas há também aqueles, que acompanham o desenrolar dos fatos sem se deixar abalar, porque nunca nem acreditaram no establishment, ou na máquina capitalista, como diriam.
Meu trabalho de conclusão de curso (TCC) do Jornalismo, que foi um livro-reportagem chamado “Quem somos e Em Quem Votamos”, tratou os diferentes grupos que compõem o eleitorado brasileiro atuante. Nele, conheci, entre as dezenas de pessoas com quem conversei, a Natalia, uma jovem de 26 anos que mora no coração do centro de São Paulo, na Rua Anita Garibaldi, e que se identifica como uma punk anarquista. Ela acabou não entrando no livro, mas foi através do nosso encontro que conheci esse grupo peculiar de pessoas.
Interessante contar que os punks de hoje em dia foram no passado o que se chamavam de Apaches, grupos do início do século XX (termo surgiu em 1902), considerados pela sociedade francesa como jovens vadios urbanos, malandros e amorais.
Estudando essa semana sobre indivíduos marginalizados, li o texto “Os Excluídos da História – Mulheres, operários e prisioneiros”, que me “apresentou” os Apaches. De acordo com a autora do texto, a historiadora Michelle Perrot, este fenômeno social ocorrido na sociedade francesa, especialmente na parisiense, nasceu graças ao horror à burguesia, às normas e etiquetas da época, ao cotidiano que parecia sempre igual e entediante e à polícia. Um pouco do que Natalia – e quem sabe alguns brasileiros – sente agora, no Brasil de 2021.
Os Apaches, geralmente provindos das periferias da cidade, eram anti-establishment, ocupavam o submundo, não trabalhavam nem estudavam, andavam em bandos, viviam de pequenos furtos, odiavam e contestavam a ordem social imposta e não tinham pátria ou muitas vezes família. Eram homens e mulheres que viviam à margem da sociedade. Será que os mais de 14,7% de desempregados do Brasil se tornariam Apaches?
Natalia pensa como os Apaches – sem nem mesmo saber – e é uma versão contemporânea deles. Uma tradicional punk paulistana, que se diz totalmente contra o Estado, saiu da casa de seus pais na Mooca aos 18 anos para morar com um amigo mais velho no centro de São Paulo.
Menina de classe média, se formou no ensino médio porque foi obrigada pelos pais, arranjou um emprego como vendedora em uma loja de artigos e roupas punks na Galeria do Rock, onde conheceu sua namorada.
Natalia tem o cabelo raspado até a metade da cabeça, usa maquiagem de “palhaço” – exceto quando vai “para fora da bolha, tipo, banco, médico, exames, visitar meus pais” – com o rosto pintado de tinta branca, olhos circulados de vermelho ou preto, tatuagem fechando os dois braços, alargadores nas orelhas, piercings na sobrancelha e boca.
Ela disse trabalhar porque precisa de um sustento, mas que “desde os 16 anos, sentia que nada fazia sentido, os dias eram sempre iguais; escola, casa, trabalho, escola, casa e sem um objetivo final que fazia sentido para mim. Eu não queria contribuir para a ‘máquina’, para o que foi preestabelecido para mim, eu queria sair desse ‘tipo’ de sociedade. Assim que juntei dinheiro o suficiente e me formei na escola, me mudei para a casa de um amigo, que conheci na Praça Roosevelt’, conta. Os Apaches também tinham essa perspectiva niilista da vida, muitos sem frequentar escola, sem trabalho e com um futuro incerto.
Assim como os Apaches, o grupo de Natalia vive em bandos, odeia regras e etiquetas sociais, dizem preferir “viver a vida no limite mesmo, sem saber se vamos pagar os boletos no mês que vem”. Vivem de cigarros e cocaína barata que compram na Peixoto Gomide e não fazem questão de agradar ninguém fora da bolha punk. Assim como os Apaches, vivem um Western urbano, possuem mobilidade crítica e espírito desordeiro – sempre frequentam manifestações contra o governo na região central de São Paulo, geralmente depredando bancos e ameaçando policiais por meio da tática Black Bloc.
Tanto os Apaches quanto a “comunidade” punk paulistana, da qual a Natalia faz parte, sentem aversão a normas, convenções e regras rígidas – no caso dos Apaches, esses fatores se dão principalmente pelo controle severo do corpo nas fábricas —, atravessam a vida intensamente, representam uma crise das disciplinas gerais e são um fenômeno social possivelmente gerado, entre outras questões, por uma erupção de frustrações, embates e desgostos pela maneira como a vida tem sido imposta, desta “jaula de ferro do capitalismo”, como dizia Max Weber. E viver a vida alternativa, é encontrar uma válvula de escape.
Você viraria um Apache contemporâneo para fugir da realidade brasileira de 2021?