Ambientado na periferia de Paris, longa mostra a crueza da violência entre os afro-franceses

Nathan Maciel*, Especial para Fina

Garotos negros vão de trem até a região central da cidade de Paris e encontram uma multidão para assistir a final da Copa do Mundo de 2018. Como num documentário, os meninos assistem ao jogo e comemoram a vitória francesa. Ao fundo, atrás da massa vestida de azul, branco e vermelho, há dois dos mais famosos cartões postais da cidade, a Torre Eiffel e o Arco do Triunfo. Esta é a cena de abertura de Les Misérables, do diretor Ladj Ly. Mas não se deixe enganar, essa França bela e festiva está longe de ser a que será vista no decorrer do filme.

Não se trata de apenas mais um filme sobre violência policial e sobre a periferia. O que Ladj Ly propõe é uma experiência de imersão capaz de atrair para o fundo de si até mesmo o espectador cuja realidade é a mais alheia à apresentada na tela. A agilidade de sua ficção parece racionar até mesmo o tempo de respiro. Quase não há tempo para contemplação introspectiva: em apenas uma hora e quarenta minutos o diretor revela a fotografia brutal de uma população massacrada por um sistema de abandono e opressão em um dos países mais ricos do mundo, e impressiona com a fluência de seu cinema.

Os protagonistas são três policiais responsáveis pela ronda na comunidade onde vivem os garotos da cena de abertura, um bairro pobre na comuna de Montfermeil, região metropolitana de Paris. Um dos agentes, Stéphane, vive seu primeiro dia no trio e seu olhar nos serve como guia pela barbaridade da narrativa. Já na primeira abordagem policial, somos introduzidos ao controverso modo de trabalho daquele grupo.

Há três garotas adolescentes no ponto de ônibus, uma delas fuma. Ao avistá-la, Cris, o mais falante deles, sugere sua intenção de apalpá-la de maneira sexual. Ao chegar até ela, com ares de dono da rua, a questiona sobre sua idade: 15 anos. Ele encontra o cigarro no chão, o traga e bafora a erva em seu rosto com uma proximidade desconcertante. Por constatar que se tratava de maconha, ele passa a tocá-la com violência, na pretensa intenção de revistá-la. Diante da cena de violação, uma garota de mesma idade que também espera seu ônibus começa a filmar Cris e Stéphane com seu celular. A justiceira dispara uma reação ainda mais violenta de Cris: ele arremessa o telefone no chão e manda que as garotas saiam andando sem protestar. Naquele lugar, são eles a lei. Entretanto, não são todos os moradores que aceitam abordagens como essa. Em uma cena marcante, onde os três abordam alguns garotos na entrada de um prédio, há uso de violência para revistá-los e interrogá-los. Uma mulher que parece ser a mãe de um deles surge aos gritos. Ela, completamente desarmada, conta apenas com sua voz contra os policiais, mas consegue tirá-los de lá e protege os seus – atitude de coragem comum entre as mulheres no filme. 

Há também, na paisagem humana daquele lugar, uma diversidade de personagens, que apesar de terem uma única aparição, ajudam a construir o ambiente da narrativa. É o caso, por exemplo, do rapaz que cumpriu anos de pena após ser preso por Cris e que agora procura trabalho, ou o jovem deficiente intelectual, irmão do chefe da milícia local, que frita um ovo no escaldante sol de verão. Há o homem que vende lanches em um espaço improvisado na rua, mulheres que se emprestam dinheiro em coletivo, crianças que escorregam em tampas de lixeiras no que deveria ser uma pista de skate. Diante da câmera, desnuda-se um mundo, que mesmo feio e caótico, cheira à verdade. 

Cena do filme Les Miserables Copyright Wild Bunch Germany

É dentre o caos dos enormes prédios de moradia social e das feiras livres que Ladj Ly constrói um elaborado jogo entre espaço, atores e câmera. Em um jogo calculado de ações e reações, a lente sob sua direção parece viva ao seguir os passos das personagens, capta expressões de relance, se joga em rápidos zooms in e zooms out, e reivindica um papel decisivo na construção da narrativa. Embutido no mais cru, e por vezes, sórdido realismo, ele não se furta a flertar com elementos inusitados: é o roubo de um filhote de leão que desencadeia os acontecimentos da trama. Mas até isso, que me pareceu um sopro de fantasia na dureza daquelas vidas, é também mais um elemento inspirado na realidade. Segundo Ladj Ly, numa entrevista ao Los Angeles Times, tal elemento é fruto da história de seus amigos, que quando jovem roubou o animal selvagem pois pretendia criá-lo e usá-lo contra as ações desproporcionais da polícia. 

Assim como este episódio, outro acontecimento central do filme – o registro de um ato de brutalidade policial contra uma criança – também é fruto de um caso real. Em entrevista ao Le Monde, Ly conta que em 2008 ele mesmo filmou uma agressão semelhante no mesmo local onde o próprio diretor cresceu e que serviu como locação principal deste longa. À época, ele era parte de um grupo de jovens que, depois dos protestos contra a violência policial iniciados na periferia de Paris em 2005, começou a andar sempre com uma câmera no bolso a fim de filmar qualquer conduta policial inapropriada (nascida nos EUA, a prática ficou conhecida como copwatch). 

A proximidade de Ladj Ly com o tema faz com que ele conheça como ninguém o mundo articulado tão bem em sua narrativa. É no subterrâneo desta trama, que une e coloca em oposição os poderes que regem aquela sociedade, que ele costura a história da perpetuação da violência e da opressão. Há na superfície a conivência e brutalidade policial, a exploração e o poder da milícia local, a força do tráfico de drogas e a influência do islamismo e suas lideranças. Porém o que se revela na sequência final é o impacto deste estado das coisas na história dos meninos e meninas que crescem ali. Há um legado de violência que retroalimenta aquele sistema de opressão e é este o grande incômodo que permanece após o subir dos créditos. 

Para quem vive no país cuja polícia é a mais letal do mundo, o filme ganha um significado ainda mais contundente. E após as manifestações pelo assassanato de George Floyd, quando a discussão sobre a brutalidade policial saiu do debate de especialistas e tomou as ruas de todo mundo, essa história não poderia ser mais atual. Hoje parece ser – ou pelo menos deveria ser – impossível manter-se inerte diante de uma situação tão grave e urgente. 

Tão acostumada aos fatos narrados pelo filme, para a imprensa brasileira o que incomodou parte dos críticos foi a ausência de proposições no filme. Apesar disso, é quase unanimidade o elogio ao realismo e à energia arrebatadora do longa, além da citação à óbvia referência ao romance de Victor Hugo. O livro não apenas empresta título ao filme, mas também se passa no mesmo local e tem um de seus trechos inserido como cartela após a última cena. 

Pela própria natureza do filme, preocupado com a realidade e sem buscar soluções fáceis e finais felizes, nem mesmo os produtores esperavam uma performance tão prolífica nos cinema. Para manter o roteiro como Ladj Ly queria, a produção teve que contar com metade do orçamento previsto inicialmente e economizar gravando no bairro do próprio diretor, onde as pessoas que o conheciam poderiam contribuir com a realização. E eles devem estar orgulhosos, o longa é forte não apenas por sua narrativa bem amarrada e de ritmo envolvente, mas por traz a potente mensagem que provavelmente está entalada na garganta de jovens como Ly há muitos anos. O filme se tornou sua denúncia das vidas invisíveis que existem sob uma bandeira da liberdade, igualdade e fraternidade. 

Não à toa que o diretor se abstenha de indicar soluções, afinal esse não parece ser seu objetivo. No ápice da narrativa, quando o destino do vídeo que incrimina os policiais está na mão do líder religioso local, o que o convence a não fazer nada é justamente a falta de fé no Estado. Diante do desejo de dinamitar a engrenagem que opera sob a gramática da violência e da intimidação mantida pelo poder público, o que vence não é o desejo por mudança, mas uma completa desesperança de que tal mudança venha a ser positiva. Uma solução que abarcasse a complexidade do problema e que pudesse ser proposta em um filme tão curto seria apenas panfletária e vazia. 

A escolha mesma dos policiais como protagonistas corrobora a tentativa de evitar saídas simples. Não são eles os verdadeiros vilões e sua punição não aponta para uma melhora na condição de vida daquelas pessoas. Cris em um momento diz “estar apenas fazendo seu trabalho”, sensação reforçada em sua volta para casa. Ele não é um gangster, ele é apenas mais um representante da classe-média com suas duas filhas e sua esposa. Outro policial do trio, Gwada, é negro, e, assim como boa parte dos moradores de Montfermeil, filho de imigrantes africanos. Como ambos dizem para o novato Stephane, se eles agem como agem é porque essa é a forma que encontraram para sobreviver naquele emprego. 

Pode-se concluir que o filme convida a uma visão cética sobre a situação de vulnerabilidade e pobreza daquela população. E, de fato, há elementos que desanimam mesmo os mais esperançosos, como Stéphane mesmo comenta: a condição de marginalidade não mudou muito desde que Victor Hugo escreveu sobre o lugar há mais de 150 anos. Por outro lado, o que é visto como ceticismo pode servir como um convite à luta e a um posicionamento. 

Diante da escalada da violência que se retroalimenta nas novas gerações, qual é o mundo que queremos construir? Quais são as pautas que realmente importam para construirmos um futuro de paz? Quando tais jovens ocupam os espaços centrais das cidades usando desta mesma violência que os formou, qual deve ser a resposta da opinião pública e da política? Talvez seja à luz destas perguntas, e não de respostas, que a importância do filme deva ser analisada.

*É roteirista e produtor.