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| Fotografia da minha autoria |
«(...) uma delicadíssima história de resistentes»
Avisos de Conteúdo: Escravatura, Morte, Preconceito, Violação
O nosso passado é tecido a conquistas e exaltação, de rumos desbravados e marcos inesquecíveis. Porém, há muitas sombras que nos pesam, há pedaços de história pouco dignos, que atormentam povos e memórias. Através da realidade dos Abaeté, Valter Hugo Mãe mostra-nos o quanto a «fera branca» provocou danos.
DA COMPLEXIDADE AO BRILHANTISMO
As Doenças do Brasil inicia-se com um crime hediondo. Honra, tal como sabemos numa primeira abordagem, é fruto de uma violação e crescerá sempre com as cicatrizes desse ato, sobretudo, porque sentirá na pele o julgamento, a não pertença e a sensação de ser uma nódoa na comunidade, como se a descredibilizasse, como se fosse responsável por tamanha atrocidade. E, em simultâneo, aflora um forte desejo de vingança.
«Era importante deixar livres as coisas que não queriam ter nome»
O autor construiu um povo com um dialeto distinto, inventado pelo próprio, tornando a leitura complexa. No entanto, assim que somos capazes de nos familiarizar com aquilo que tem de desconhecido, entendemos os vários significados que certos termos adquirem neste vocabulário amplo e deambulamos pelo brilhantismo da sua mensagem. Porque foi tudo estruturado ao detalhe, provocando-nos estranheza, desconforto e urgência.
«partirei um quase nada porque jamais poderei partir de tanto vos pertencer»
Esta obra proporciona-nos uma viagem intimista, conhecendo a luta interior de alguém que combate contra a revolta e a humilhação; de alguém que procura fazer justiça, enquanto sana a maldade. Dividida em duas partes, percebe-se a vontade de encontrar no outro um igual e de conceder espaço para coexistir a compaixão.
O PESO DO PASSADO
A invasão do homem branco teve repercussões nefastas, cobrindo-se de violência, escravatura, racismo e mortes. A partir desta narrativa, refletimos sobre o passado colonial, sobre a necessidade de subjugar comunidades e usurpar o seu território e os seus bens, obrigando-as a fugir, a procurar por paz e liberdade em lugares longínquos. Por oposição, assistimos à gentileza de populações cuja âmago é feito de inocência e luz.
«O cadáver de todas as coisas está na língua. Naquilo que se pronuncia
sobra tudo quanto foi, e a existência não se livra do cúmulo do que já passou»
As Doenças do Brasil é a ferida pulsante de um passado que continua a ecoar no presente. E, sentindo a mágoa, a culpa e a vergonha latentes, este longo poema é a aventura e a catarse daqueles que resistem.
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