Ao abrir o livro com um poema intitulado Programa, João Rui de Sousa oferece-nos a ilusão de uma linha orientadora, descodificadora da sua poesia (se é que isso existe), contudo, estamos perante o enunciado do jogo de referências que usa no seu universo poético. Nele encontramos a remissão para o que se liberta, o que emana dos corpos, o calor irradiado e o desejo aprisionado, sequioso do voo. Um assombro que se solta do foco mais profundo de ascese, onde amadurecem abismos por entre erva e um frescor de rio. Não existe em toda esta poesia um lugar de sossego onde reclinar a cabeça.

Estamos na presença da poesia forte tal como defendeu António José Borges na atribuição do prémio poesia, Tabula Rasa 2017, a João Rui de Sousa. Um registo que rejeita a poesia de entretenimento, a que fica presa no ouvido como uma ladainha infantil, sobretudo quando invade a margem de amargura que perturba a alma.
O erotismo espreita pela porta entreaberta do indício, é o seu primeiro afago, um explícito toque de pele e sua substância afetiva:
Eram brevíssimos sinais que, no decorrer
dos instantes, pairavam na atmosfera
como se fossem pacíficos insectos
ou farrapos de lã. Eram certos modos
de estar ou ser, silenciosamente ou quase,
que se tornavam a palha (e a poeira)
de uma secreta, mas compacta, comoção.
Um erotismo silencioso e não brando, incerta ave celebrada em ambiente de festa: as ofertas do amor bebem-se como dádivas dos amantes. Os elementos da natureza invocam a sua espontaneidade e as suas oferendas, a recordar-nos como o natural é inato ao amor. É da natureza do inesperado ser intemporal, tal como o erotismo não se esgota no tempo, nem perde o seu brilho. A imagem ardente do desejo que irradia da festa dos corpos em entrega, recorda-nos que só nesse registo se alcança o céu exacto, e de como sublime é o lado indizível da poesia.
Eis que de repente alguém recolhe
a âncora e faz subir as velas
– para que um barco avance
nas rotas do desconhecido
e do desejo,
Ardorosa Súmula, 2016, Coisas de Ler
