Se tivesse de descrever a obra de Pilar Quintana numa palavra seria desconcertante.
Já tinha lido «A cadela», um livro sobre uma mulher que não consegue cumprir o seu desejo de ser mãe, adopta uma cadela e sente-se traída quando ela engravida e tem uma ninhada de cachorros.
Apesar de ter gostado do livro, senti que o rumo foi bastante prevísivel. Ainda assim, tinha muita curiosidade em ler o segundo livro da autora «Os abismos».
Aqui temos uma mulher que segue o rumo normal da sociedade, sem grande vontade própria. Quer estudar direito e seguir para a universidade, mas o pai não deixa porque o lugar das “mulheres decentes” é arranjar um marido e ter filhos. E é isso que ela faz.
A história é contada do ponto de vista da filha de 8 anos que vai assistindo ao definhar da relação entre os pais, à solidão da mãe e à evolução da sua depressão.
A mãe justifica sempre o facto de querer ficar na cama o dia todo como “tendo rinite” e, se inicialmente a filha acredita, com o tempo, vamos percebendo que ela vai compreendendo o que isso significa na realidade, principalmente porque a mãe desenvolve uma obsessão com acidentes famosos misteriosos, como o da Kelly do Mónaco e o de Natalie Wood, que vai partilhando com a filha.
Essencialmente, é um livro sobre como os problemas de saúde mental de uma mãe podem afetar os filhos. Numa palavra: desconcertante. Mas bom, muito bom.
