Já me encontro a ler livros de mulheres, dentro do projecto #marçofeminino, mas nunca deixo uma review por fazer, portanto, adiante.
O livro de grande parte do curto mês de Fevereiro, e a minha primeira experiência com Philip Roth, também.
E confesso que saí desiludida. Por um lado, tinha expectativas elevadas quanto ao autor, por outro, quanto à história. Esta narra a vida de um professor universitário afro americano que há mais de cinquenta anos fingia ser branco, de origem judaica, e escondera esse facto de toda a gente, incluindo a sua esposa, filhos e netos.
Ao longo da sua carreira, chegara a reitor, fizera algumas contratações e cortes de que se arrependera e que se virariam contra ele quando, ao perguntar por duas alunas que nunca compareciam às suas aulas, perguntou se seriam "spooks". Algo que eu não sabia, e que aprendi com este livro, é que spooks é não só uma palavra para espíritos, fantasmas, etc, mas uma expressão derrogatória para se referir a pessoas de cor. E aconteceu as alunas serem negras, e terem feito queixa.
Não é engraçado como a linguagem pode ter um papel tão forte, naquilo que foi simplesmente um mal-entendido? E, acima disso, o papel que a verdade poderia ter tido, se Coleman Silk não tivesse levado a sua mentira para o caixão?
Com uma simples palavra, surge um escândalo intenso e a esposa de Coleman Silk acaba por morrer com um enfarte. Neste momento, Silk aborda um vizinho escritor, Nathan, para escrever a sua história, a história de como foi injustiçado por uma palavra menos bem escolhida, mas nunca escolhida com um carácter ofensivo. E, no meio disto tudo, não revela que nunca diria tal palavra com esse significado, por ser uma das suas vítimas.
O pai que nunca perdia a calma. O pai que tinha outra maneira de desancar alguém. Com palavras. Com discursos. Com aquilo a que chamava "a linguagem de Chaucer, Shakespeare, Dickens". Com a língua inglesa que ninguém jamais nos poderia tirar e que Mr. Silk pronunciava opulentamente, sempre com grande sonoridade, clareza e pompa, como se, até numa conversa comum, estivesse a declamar o discurso de Marco António diante do cadáver de César (...) pelo menos em casa nada o impedia de falar com toda a intencionalidade, precisão e clareza e fulminar os outros com palavras.
Coleman Silk fez-se passar por branco na marinha, por a cor da sua pele lho permitir, e continuou a viver a mentira posteriormente. Quando uma namorada da universidade conheceu a sua mãe e irmã e percebeu a verdade e literalmente fugiu, Silk decidiu afastar-se da família e aproveitar as maiores oportunidades que a vida lhe oferecia se fosse branco. E, assim, teve uma conversa com a mãe sobre como nunca mais a iria ver, e escolheu uma esposa com alguma base na textura do seu cabelo. Just in case.
Casado, foi pai de quatro filhos, e com todos os quatro escapou às hipóteses da genética. Arranjou um emprego numa faculdade, chegou a reitor, fez inimigos como qualquer pessoa de sucesso. Tudo isto, até usar a palavra errada, ser acusado de racismo, e acabar por se demitir e ficar viúvo. Porque, ironicamente, chegara a um ponto no qual não podia revelar o seu grande segredo, nem para se defender ou para salvar a sua carreira. Porém - uma pessoa negra não pode fazer comentários racistas sobre pessoas negras? Quem é que pode, realmente, ser culpado?
Com a morte da esposa, Coleman Silk sente que o mundo inteiro é uma conspiração contra ele - isto até conhecer Faunia, empregada de limpeza que trabalha em três sítios diferentes (incluindo uma ordenha), tem 34 anos, foi abusada pelo padrasto, é perseguida por um ex-marido ex-combatente, os filhos dela morreram, etc, imaginem todas as desgraças do mundo numa só pessoa - é Faunia. E com Faunia e com Viagra, Silk encontra uma vida nova (e arrasa completa e definitivamente com a sua reputação). Novas questões: aos 34 anos, Faunia é, sim, muito mais nova que Silk - mas a partir de que idade é que deixa de ser "aproveitar-se de uma mulher mais nova"? Por que é que uma mulher de 34 anos não pode consentir numa relação com um homem de 71, se é adulta?
Ao mesmo tempo, os filhos de Coleman deixam de falar com ele, recebe cartas acusatórias de ex-colegas de trabalho, e Les Farley, o já referido ex-combatente, que sofre com memórias do Vietname, começa a persegui-lo a ele também.
Entretanto, há toda uma analogia entre o escândalo de Silk com o de Bill Clinton, que (de acordo com a cronologia do livro), acabara de ocorrer.
A narrativa é muito pouco clara e talvez demasiado densa para o meu gosto: passa de um narrador para o outro, de pensamentos para factos, incluindo pensamentos e factos que o narrador primário, Nathan, não poderia ter sabido. Como é que ele sabe que uma mulher com quem nunca falou gosta de pássaros, nomeadamente gralhas? Sente-se que muito do propósito do livro acaba por ser o estilo da narrativa, e não a história em si, que é maioritariamente curta e avança muito lentamente.
E depois há o que me incomodou mais. Por que é que autores homens de uma certa idade parecem adorar escrever sobre homens da mesma certa idade a envolverem-se com mulheres muito mais novas e a terem relações hipersexualizadas? Philip Roth, não quero ler sobre o teu pénis, acalma-te.
É, no entanto, e sem dúvida, extremamente thought provoking, especialmente em questões de raça, de identidade, de relações interpessoais.
