UMA INVESTIGAÇÃO FILOSÓFICA
(publicado originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de fevereiro de 1996)
Nas histórias de suspense dos últimos anos verificam-se duas linhas dominantes: numa, um psicopata ressentido ameaça a integridade de uma pessoa ou de uma família, assumindo uma identidade corriqueira (babá, inquilino, companheiro para dividir aluguel, policial, primo distante etc); noutra, há um psicopata genialmente inteligente, culto e com incríveis meios financeiros para poder sustentar um jogo de gato e rato com os investigadores (o exemplo acabado e mais notável dessa cruza entre civilização e barbárie é Hannibal Lecter, de O silêncio dos inocentes). Os últimos rebentos desse segundo filão, porém, estão chegando a verdadeiros delírios. É o caso do cômico assassino de Seven (interpretado pelo superestimado Kevin Spacey), que raspa as pontas dos dedos periodicamente para não deixar impressões digitais (seria tão mais prático colocar luvas, não?). Ou o do romance Uma investigação filosófica (a tradução do diligente A.B Pinheiro de Lemos para A philosophical investigation,1992), que nos lega suas reflexões sobre o mundo ao longo das 300 páginas da narrativa.
O livro do escocês Philip Kerr transcorre num século XXI dominado pela informática e pela realidade virtual. O psicopata é um dos homens identificados pelo Projeto Lombroso como não-possuidor do inibidor central de violência (chamado de VMN). Cada um desses indivíduos potencialmente perigosos para a sociedade recebe como codinome um nome célebre (Shakespeare, Dickens, Descartes etc). Nosso psicopata é brindado com o nome de um dos mais difíceis e seminais filósofos do século XX, Ludwig Wittgenstein.E sendo inteligentíssimo, claro, e cheio de recursos, resolve eliminar os outros que foram listados pelo projeto.
Kerr é um autor esperto e às vezes sentimos que ele poderia ser um Rubem Fonseca, embora neste a (pseudo) erudição também seja um defeito gritante. Kerr sabe que Nietzsche como modelo para criminosos que se acham super-homens já se esgotou, por isso utiliza Wittgenstein, que está bem em moda, e cujas idéias, as quais questionam a linguagem que nos serve para representar a realidade se prestam à sua utilização oportunista, principalmente ao inserir-se, aqui e ali, algumas citações e pastiches do filósofo austríaco: “Aquilo de que não devemos falar devemos deixar passar em silêncio; “os nomes são como pontas; as proposições como flechas—têm sentido”; “não podemos pensar o que não podemos pensar; portanto, o que não podemos pensar também não podemos dizer”; “seria um erro presumir que qualquer teoria possa dar toda a gramática de como usamos a palavra” etc. O problema é que, fora do contexto das obras de Wittgenstein (como o Tratactus lógico-philosophicus), árduas e que requerem dedicação e estudo, esses trechos parecem triviais, ou cheiram à nouvelle philosophie francesa, com aquelas proposições tautológicas ou rebarbativas, em linguagem retorcida e bruxuleante.
Trivialidade e superficialidade, aliás, dominam Uma investigação filosófica. Kerr, portanto, pode ser esperto, mas é ruim demais. Será que teremos de engolir nos próximos anos livros com termos como “perfil aquilino endogâmico”, “história distopiana”, “novo gestaltismo da minha vida”, “encefalização da função”, “freqüência de alelos”, “fome temperamental de solipsismo” (uma das minhas favoritas), “gramática genética universal”, “avaliação subjetiva do padrão objetivo”, “interrogatório fenomenológico” etc! E o estilo, então: “gelo escorregadio do trabalho intelectual do detetive”, “o bico duro e inflexível do tirano rompendo a casca que contém o ovo da oposição”, “ viu a malícia descer por seu rosto, como uma gota de suor”!!??
Não bastasse tudo isso, ainda criou uma interlocutora de Wittgenstein, a Inspetora Jake, que além de manter com ele uma relação parecida com a da Clarice de O silêncio dos inocentes com Hannibal Lecter, física e emocionalmente nos lembra Sigourney Weaver e suas heroínas mata-monstros. E a Sigourney de Kerr ainda por cima odeia os homens e é obcecada com os vícios masculinos, o que dá o tom “politicamente correto” e revisionista que não poderia faltar ao livro, mesmo que em clave irônica (ou engraçadinha). Então temos trechos como “golpe na armadura do ego masculino coletivo”, “os colegas que trabalhavam no caso adotaram uma típica visão falocêntrica”!!??
Enfim, assim como há crimes hediondos, também podemos encontrar livros hediondos. E hedionda é também a edição da Siciliano, que tem a cara de pau de colocar um preço abusivo por um produto tão mal cuidado (em todos os tópicos: capa, impressão etc), falta de capricho comum à boa parte de seus lançamentos.É lixo embalando lixo.
VIOLETAS DE MARÇO
(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de janeiro de 2000)
No transcorrer da trama de Violetas de março (March Violets, 1989, traduzido por Jaime Rodrigues & Gilson Baptista Soares, para a Coleção Negra da Ed. Record), o investigador particular Bernhard Gunther, encontra o caráter em decomposição de um aristocrático chantagista (cujo desaparecimento começou a ser investigado pelo herói-narrador a partir da solicitação irrecusável do todo-poderoso Goering) numa pensão abandonada.
Esse cadáver tem tudo a ver com o espírito de Violetas de março: trata-se de um livro putrefato, de um autor especialista em juntar sobras podres de estilos e procedimentos filosóficos e narrativos muito melhores. Nesta minha coluna, já comentei um empreendimento igualmente necrófilo e oportunista de Philip Kerr, o ignóbil Uma investigação filosófica. Ainda assim eu, esquecido da ruindade do livro anterior, deixei-me seduzir pela ambientação das aventuras de Bernhard Gunther. Pois Violetas de março faz parte de uma trilogia noir insolitamente aclimatada na Berlim dos tempos nazistas (a ação do livro coincide com as Olimpíadas de 1936). O próprio título tem a ver com o nazismo, pois “violetas de março” eram aqueles que aderiam ao regime hitlerista. Só que como Kerr é um charlatão que trabalha no vácuo, esse título não tem a menor importância ou relevância na história.
Pior ainda, a nulidade literária do escrevinhador escocês faz com que seu protagonista pareça ter sido arrancado a fórceps do tempo presente para a época na qual se desenrolam os acontecimentos (ele é contratado por um magnata para investigar o assassinato da filha e do genro, mais o roubo de jóias e documentos valiosos). Pois o que faz Gunther? Explica os fatos para o leitor como se já fossem fatos históricos, como se tivesse conhecimento de como eles seriam interpretados pela História. Essa presciência do personagem às vezes é tão risível, mesmo quando adota um tom sério e catastrófico, que ele fica parecendo os apresentadores de O mundo de Beakman ou Eureka, os quais procuram transmitir conhecimentos de forma engraçadinha (debilóide, diriam alguns maldosos): “Berlim. Eu costumava amar esta velha cidade. Mas isso foi antes que ela perdesse as suas próprias características e passasse a usar espartilhos tão apertados que era difícil respirar. Eu amava as filosofias despreocupadas e agradáveis, o jazz vagabundo, os cabarés vulgares e todos os excessos culturais que deram forma à era de Weimar e fizeram de Berlim uma das cidades mais excitantes do mundo”!!!??? Clichês, conhecimentos enciclopédicos de segunda e uma completa inadequação de tom numa narrativa em primeira pessoa se juntam em trechos como esse.
Violetas de março ainda por cima tenta reproduzir o clima noir dos famosos livros de Raymond Chandler e Dashiell Hammet e dos filmes dos anos 40 que consagraram o gênero. Este artigo é escrito por alguém que nem é tão admirador assim dos autores-ícones do gênero (à exceção do grande Chandler), mas é inegável que são uma referência fundamental do século que termina. Além disso, a irreverência cínica das narrativas em primeira pessoa era bastante apropriada para mostrar o desmantelamento moral de uma sociedade basicamente corrupta.
O discurso do narrador de Violetas de março, tentando reproduzir a tal irreverência cínica, é tão estapafúrdia que já de saída se transforma numa paródia, como se Leslie Nielsen viesse substituir Humphrey Bogart num filme dramático e tentasse fazer o espectador levá-lo a sério. E lemos pérolas do tipo “Cada bico castanho [dos seios da mulher fatal da trama] parecia-se com o capacete de um soldado britânico”!!!??;”Impaciente, tirei sua calcinha e joguei na cama, onde afastei suas coxas bronzeadas, como um erudito abrindo um livro raro. Durante algum tempo, dediquei-me ao texto, virando as páginas com os dedos”!!!!!!????; “engoliu em seco nervosamente, o pomo-de-adão movimentando-se como um casal em lua-de-mel sob finos lençóis rosados”!!!!???; “ergui minha mão e aninhei seu amplo seio [este seio já é o da garota boazinha da trama] na palma aberta. Após cerca de um minuto, tomei seu mamilo entre o indicador e o polegar. Não foi difícil achá-lo. Era tão duro quanto a tampa de um bule de chá, e igualmente grande”!!!!??? Nossa, ele realmente acredita no poder da comparação rasteira!
Na 4ª.capa de Violetas de março, a Record colocou a seguinte opinião de Salman Rushdie sobre Kerr: “escritor brilhante e inovador”. Se Rushdie,ele sim um dos escritores mais brilhantes da segunda metade do século XX, disse isso de fato, somos autorizados a ter as mais sérias suspeitas sobre a sua sanidade mental, após a sentença de morte promulgada pelo aiatolá Khomeini, que transtornou sua existência. Ou então, ele nunca ouviu falar de Mickey Spillane.



