02
Mai24
Maria do Rosário Pedreira
Leio Paradaise (escreve-se mesmo assim, não estranhem, é o nome pomposo de um condomínio de luxo no qual se passa a história, escrita por Fernanda Melchor, a mexicana que recentemente ganhou em Portugal o Prémio Correntes d'Escritas com o anterior romance, Temporada de Furacões). Muito elogiada em toda a parte pelo seu estilo directo e torrencial, em que a palavras parecem literalmente jorrar de uma fonte inesgotável, Melchor dá-nos desta feita um pequeno livro que é de grande eloquência no tratamento da desigualdade. Partindo de duas jovens personagens, uma rica e outra miserável, descobriremos em pouco tempo como se aparentam no disparate, na bebida, no desejo, na imaturidade e na falta de contenção: Franco, o menino rico, é um gordo que se masturba o dia inteiro, filho de um advogado que não lhe liga pevide (o rapaz vive com os avós, que o deixam fazer tudo) e o que quer é fornicar com a vizinha trintona boazona, de cujos filhos pequenos se faz amigo para conseguir alguma intimidade com a família e o passaporte para entrar em casa da família (donde rouba cuequinhas de renda sujas da apaixonada). Na outra ponta, temos Polo, o jardineiro do condomínio, um negro sem um tostão furado, que chumbou a todas as disciplinas por faltas e está ali de castigo para devolver à mãe o que ela gastou com ele por causa do que não fez na escola e também por causa do que não devia ter feito a uma prima que vive com eles. Mas, para saber o que vai irremediavelmente ligar estas duas figuras, sem nada de aparentemente positivo ou agradável, o melhor é mesmo mergulhar nesta torrente de má conduta e ver como se vão ajudar na concretização dos respectivos desejos...