Hoje eu encontrei a minha avó. Considerando-se que ela morreu a quase 20 anos, posso dizer que foi uma experiência estranha.
Não sou muito de pensar nos mortos. Mas agosto é um mês diferente. Sombrio. Na infância, cada vez que iniciava o mês de agosto, minha avó dizia a mesma coisa: “sei que vou morrer em um agosto, será neste?”. Não sei de onde saiu tal ideia. De alguma crendice familiar arraigada. Passava o mês inteiro com a respiração suspensa, vendo a morte a espreitar em cada esquina. Só voltava a sentir alívio quando setembro iniciava, com os sorrisos da primavera próxima. Trinta dias de tensão para onze meses de crença absoluta na vida.
Um dia minha avó acertou o agosto. Chegou o mês dela. Se bem me lembro – perdoem a minha falta de memória, por precaução, apaguei muitas coisas do passado -, ela morreu no último dia de agosto, faltando algumas horas para setembro assomar no horizonte e salvá-la. A auto-profecia se cumpriu. Eu falei com ela menos de uma hora antes da Morte encontrá-la. Hoje sei que a vó imaginava que tinha escapado naquele agosto, mas o mês ainda tinha algumas horas para fazer o seu truque de desaparecer com a vida alheia. Não se pode subestimar a Morte nunca – ela gosta de marcar gols nos descontos, é uma jogadora que nunca desiste.
Os fantasmas são assim mesmo: não escolhem onde vão aparecer. Eles surgem do nada, quando não esperamos.
Drummond encontrou o fantasma do seu pai caminhando em Itabira. Michelangelo viu a sombra de Moisés espiando dentro do bloco de pedra. Não é espantoso que eu tenha encontrado o fantasma da minha avó em uma música do José Augusto.
Há muito tempo não ligava o rádio. A roleta russa de músicas me cansa, prefiro escolher aquilo que vou escutar ao invés de deixar uma voz escolher. Mas cedi ao comodismo e, ao escutar a música, lembrei de uma conversa que tive com a minha avó um dia antes de ela morrer. Surgiu com uma nitidez incrível, como se tivesse acontecido alguns minutos antes, mas duas décadas separavam a conversa da sua recordação.
A morte tem um efeito interessante: assim que a vida de outra pessoa acaba, começamos a esquecê-la e apagar os seus traços. Penso que é um efeito da evolução, uma forma da vida nos mostrar que tudo passa, em especial a vida alheia, e que devemos prosseguir. Resta muito pouco da figura da minha avó na memória (penitencio-me por isto), mas o sentimento ainda lembra.
Pergunto-me se as pessoas possuem a intuição inata de que vão desaparecer e deixam mensagens subliminares ou somos nós, que vemos fatos soltos e interligamos em uma cadeia de sentidos – o desejo de acreditar que existe uma lógica. Não sei. Mas lembro da nossa conversa, e o fato de recordar uma conversa ocorrida há quase 20 anos e não lembrar mais direito da pessoa é perturbador.
Minha avó escutava na rádio a música “Chuvas de Verão”, cantada pelo José Augusto. Eu entrei no seu quarto para falar algo e ela pediu silêncio. Não estávamos ainda nas facilidades da era da reprodutibilidade técnica, sequer existiam CDs ou DVDs. E perder uma música na rádio podia ser um momento irrepetível. Por este motivo, estávamos acostumados a esperar e, assim, fiquei calado.
Quando a música acabou, minha avó olhou-me como se fosse a primeira vez que entendia tudo. Disse que se lembrava de mim toda vez que a escutava. Disse que eu estava naquela música, eu era aquilo que o José Augusto cantava.
Na época, eu tinha o cabelo comprido e usava roupas majoritariamente pretas. Escutava heavy metal o dia todo e começava a ir em shows. Não existia nada mais contrastante do que pensar que eu podia ser a música (brega) do José Augusto.
Devo ter soltado um resmungo de exasperação (as pessoas estão sempre me encontrando nos locais em que não estou). O momento passou sem nenhuma explicação adicional e, no dia seguinte, minha avó levou os pensamentos dela para o outro lado, onde não existem mais perguntas, só certezas.
Mas deixou para trás o mistério, e foi com ele que me deparei hoje de manhã. O que foi que a minha avó viu dentro de “Chuvas de Verão”, de José Augusto? Onde eu estou ali dentro? Tenho vinte anos a mais de idade e continuo não me enxergando na música; analiso gramaticalmente a letra (meu Deus, quantos adjetivos, quantos clichês…!) e não vejo nada. Desconstruo frases, melodia, ritmo, linhas harmônicas, uso todo o meu cabedal de conhecimentos e não vejo NADA que me revele. Não sei se sou cego, se a minha avó estava brincando, se ela viu algo que somente seus olhos eram capazes de distinguir, se previu aquilo que ainda serei ou se tentou chegar na minha essência através do oposto, aquilo que nunca fui.
Para mim, este é o significado mais possível de fantasmas: deixar pequenos enigmas para trás, migalhas no meio do bosque da vida, sabendo que, quando encontrarmos o quebra-cabeça cuidadosamente inserido no nosso passado, iremos lembrar dos mortos e das suas lições. Nenhuma pessoa realmente morre; só não achamos os quebra-cabeças que elas deixaram para trás.
Sei que vou morrer em um agosto. Minha avó nos sentenciou a esta sina. Parece justo: onze meses nos achando imortais para um mês de expectativa. Espero que, até a chegada do meu agosto particular, eu consiga resolver o mistério de quem a minha avó imaginava que eu era, encerrada dentro da música do José Augusto.
No entanto, cresce em mim a sensação – incômoda – de que este texto, neste blog, neste dia em específico, foi o real motivo pelo qual a minha avó falou tal frase. Para que eu lembrasse. Para que eu entendesse que cada mínima coisa pode ter um sentido e que, por mais que eu tente entender aquilo que os outros pensam que sou, nunca conseguirei chegar numa resposta completa. Uma lição de humildade – ou de resignação.
