Daniel Defoe é mais conhecido por Robinson Crusoé, mas em seu tempo era um jornalista e ensaísta e frequentemente escrevia sobre temas de não ficção, tais como “O diário do ano da peste“, “Uma história geral dos piratas“, e seus ensaios incluem uma “História do Diabo”, de onde o texto O diabo e o relojoeiro (não intitulado no original) saiu. A história de “o diabo e o relojoeiro”, conto que figura na lista de 100 contos essenciais da revista BRAVO!, em si é bastante simples.
Trata-se de um relato de um casal que, indo visitar um relojoeiro, o encontra à beira da morte, enforcado em um dos quartos de uma pensão. Ao tentar salvá-lo, a mulher é interrompida por um homem apressado, com um banco e uma faca, que sinaliza para ela que não se preocupe, que ele fará o serviço. O homem se exaspera e corre auxiliar o senhor no banco, mas, ao entrar no quarto da pensão, se dá conta que não há faca, homem, banquinho, nada além do homem enforcado. Ele desmaia ali mesmo, deixando a mulher sozinha para cortar a corda do moribundo.
Fosse uma obra de ficção, eu, como fã do estilo de Daniel Defoe, me decepcionaria bastante. A história é simples, contada sem fazer grandes mistérios, e com todo um arrazoado de porque foi o diabo que apareceu naquela cena. Mas algo me intrigou. Não encontrei em lugar nenhum uma referência em inglês para o “diabo e o relojoeiro”, mas dois ensaios sobre Aparições e o Diabo. O que me levou a crer que Daniel Defoe levava os temas bastante a sério, e que este conto não era um conto, mas sim um extrato de algum desses ensaios. Com a ajuda do Project Gutenberg descobri que, na verdade, este conto nada mais é do que um relato, usado como prova da existência do demônio. E aí a narrativa fez sentido.
Pois o tom dado ao texto, como em várias outras obras do autor, é jornalístico. Preocupado em narrar os fatos, sem florear ou estender-se por demais. Quis dar força à história contada por amigos ou pessoas conhecidas, tratando-as por fatos, e não uma absurda divagação de loucos e crentes. Ele faz questão de testemunhar a favor da honestidade e sanidade de quem lhe contou a história. Tudo isso fora de contexto ficou simplista demais, algo meio sem pé nem cabeça. Mas a história vem após um arrazoado de quase trezentas páginas, e é apenas um entre vários exemplos de aparições, que remontam os tempos bíblicos.
Quer o leitor acredite ou não na existência do tinhoso, é bom ter em mente que o autor, após anos de estudo e dentro dos conhecimentos adquiridos em sua época (o livro foi publicado em 1726), acreditava, ou ao menos levava o tema a sério. Não aconselho, no entanto, a leitura da história fora de seu contexto, principalmente para aqueles que nunca tiveram contato com a obra de não ficção de Defoe.
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Uma menina com histórias pra contar...