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Mai23
Maria do Rosário Pedreira
Não perco um livro de Elizabeth Strout, cuja escrita me fascina sobretudo pela aparente simplicidade e coloquialidade. A sua obra é mesmo um «projecto literário», na medida em que certas personagens vão passando de livros para livros e até entrando nos livros que supostamente não lhes pertencem. Li até agora todos os romances dedicados a Lucy Barton, sempre tremendo que a autora a faça desaparecer num dia qualquer. Em Lucy à beira-mar, o que li mais recentemente na tradução de Tânia Ganho, tive bastante medo de que isso acontecesse quando a Lucy diz, logo num dos primeiros capítulos, que não sabia que não voltaria à sua casa de Nova Iorque (e, como estamos num ambiente pandémico, pensei o pior); felizmente, não foi desta e desejo sinceramente que a senhora Strout nos delicie mais vezes com esta Lucy, uma personagem que é mesmo de carne e osso, com uma normalidade tão original que até faz impressão como é que isto se consegue. Mas, pronto, sem querer contar demais, neste romance a sua vida dá uma reviravolta inesperada, que é uma seta para trás, e a história da cunhada recém-descoberta em Oh, William (outro livro fascinante) terá continuidade, um bálsamo para William, o homem que está a envelhecer muito depressa, e para nós, claro, que ainda vamos querer que Chrissy, uma das filhas do casal, tenha um bebé depois de tantos desgostos e tanta magreza. Leiam, leiam, nunca desilude esta escritora norte-americana. Se o próximo não for da Lucy, pode ser que seja da Olive Kitteridge. Veremos.