feliz dia dos namorados
Violência no namoro, Educação sexual, Amor romântico, Estereótipos de género, Prevenção de violência
Imagem da campanha da APAVLinha de apoio à vítima – 116 006Os resultados do Estudo Nacional sobre Violência no Namoro 2024 apresentado hoje são, do pouco que já li, assustadores. Como é possível que em 2024 estejamos, continuemos ainda, a ter este género de comportamento, de legitimação da violência, da normalização do controlo ou do ciúme. Fala-se de “amor” enquanto estes estudos (e a realidade) demonstram que estamos a regredir.Depois de ler esta entrevista a Margarida Pacheco, Coordenadora do projeto ART’THEMIS+, um programa de prevenção da violência de género na escola, da Associação UMAR, sabia que tinha que vos sugerir ler e reflectir sobre tanto do que aqui se diz.Vou pegar num ponto desta resposta “Aquela coisa de incentivar as crianças a dizer quantas namoradas os meninos têm no jardim de infância é muito errada” e voltar àquele que é o meu tema recorrente neste dia de são Valentim: Não, as crianças não têm nada que celebrar o dia e terão mais que tempo de o fazer quanto tiverem idade para namorar.De que forma é que essa violência e do amor romântico estão presentes no dia a dia? Deu o exemplo do cinema, por exemplo.A questão do amor romântico está presente tão cedo nas nossas vidas… quando começamos logo a dizer às meninas que elas são princesas e precisam de um príncipe, por exemplo. E também logo para a questão de heterossexualidade, temos sempre esta ideia, que as crianças vão ser sempre pessoas heterossexuais. Sei que ainda é muito difícil na nossa cultura portuguesa incentivar a educação inclusiva no sentido de “atenção que há crianças que não são e não vão ser heterossexuais”, há a ideia que o casamento é um objetivo para as meninas e não é para os meninos. Não há mal algum no casamento, mas se falarmos de casamento, por que é que falamos mais para as meninas do que para os meninos? Fazemos logo aqui uma diferença muito grande. Que para os meninos é importante terem um emprego muito bom, e para as meninas é “vocês podem estudar” - aliás, há mais mulheres no ensino superior - mas, depois, chega uma certa idade e o objetivo é ser mãe e casar. Sei que as pessoas não fazem por mal, é a nossa sociedade, a nossa cultura, é aquilo que nos é ensinado. Temos que seguir aqueles passinhos: ir para o ensino superior, namorar, casar, ter filhos… Atenção com a idade, pois também ser uma mãe muito jovem é muito mal visto, mas ser mãe muito mais velha também é muito mal visto. Aquela coisa de incentivar as crianças a dizer quantas namoradas os meninos têm no jardim de infância é muito errada. As pessoas não fazem por mal, mas já estamos a sexualizar as crianças e temos muito este debate da educação sexual nas escolas - que é um direito e não um dever - nada tem que ver com sexo ou relações sexuais, tem que ver com a nossa sexualidade. O consentimento, a comunicação, o aceitar o nosso corpo, dizer sim, dizer não… As pessoas que dizem que não acham que a educação sexual deve ser realizada em crianças, muitas vezes são as mesmas pessoas que perguntam quantos namorados ou namoradas tens. É um comportamento contraditório.
Texto originalmente publicado em Ler por Aí