Em seus contos, Baldi explora as frestas na subjetividade de suas personas. Escritor carioca comenta à fina sobre as linhas centrais da seleta.
Imagem: Marina Martins/Divulgação
Por Giovana Proença
Formigas no paraíso é o resultado de um narrador dotado da arte da observação. Aliás, sendo o livro um conjunto de contos, é resultado de vários narradores. Eles estão condensados na figura do autor: o jornalista Mateus Baldi. Em sua estreia, Baldi revela a voz autoral de quem conhece a vida ali retratada: a existência enevoada dos centros urbanos. Seus personagens estão em vagueação – seja ela concreta ou abstrata.
Sobre a forma de seu primeiro livro, Baldi comenta: “o que me agrada no conto é a possibilidade de aumentar a densidade das histórias, já que não se pode aumentá-las demais em tamanho.” A predileção combina com as narrativas apresentadas. Os contos seguem a exigência formal, a brevidade. Temos vislumbres das vidas escritas por Baldi.
A personagem é uma categoria de vital importância. O livro questiona a identidade dentro do estilo de vida contemporâneo. De modo geral, há uma crise instaurada nestas personas. Uma vez transformadas pela experiência – às vezes, tão ínfima quanto o corpo de uma formiga – , elas olham para a própria subjetividade de modo distinto. “Essa inquietação sob a areia movediça do tecido social me interessa muito.”, afirma Baldi sobre o papel social de suas personagens. Formigas no paraíso é centrado na minúcia, nas nuances que dão forma à investigação literária conduzida pelo autor. Ganha o leitor que souber espiar as frestas abertas por Mateus Baldi.
fina: Formigas no paraíso é a sua estreia. Por que, como forma literária para o seu primeiro livro, você optou pelo conto?
Mateus Baldi: Sempre quis estrear com um livro de contos. Acho que isso se deve a um aspecto duplo: penso os contos como pequenos romances, e minha meta ao escrever é sempre dar àquela história – não importa se uma, duas, três ou trinta páginas – o mesmo tratamento que se dá ao romance: profundidade, tensões, espaço; o que me agrada no conto é a possibilidade de aumentar a densidade das histórias, já que não se pode aumentá-las demais em tamanho – ainda não consegui ser o tipo de pessoa que escreve contos de cinquenta páginas, mas também não gostaria de escrever em menos de cinco; e em segundo lugar, um livro de contos precisa funcionar como uma engrenagem bem azeitada, ao contrário do romance, que, por ter maior fôlego, permite umas páginas de respiro – o livro de contos, não, é preciso que tudo faça sentido individual e coletivamente. Por fim, a questão da forma. Gosto de poder usar diversos registros ao longo das histórias, sem ter que me prender a algo predeterminado.
Você faz do Rio de Janeiro quase um personagem à parte – e é um escritor carioca. Isso motivou este cenário? Além disso, o que mais influenciou essa escolha?
O Rio é meu alívio e minha ruína. Tento escapar, mas sempre volto para esse microcosmo. Tem tudo ali. É como se o Brasil estivesse hiperconcentrado nas esquinas, no asfalto. Mas também há uma questão de estar confortável, escrever sobre o que se percebe. Por outro lado, há algumas tentativas de sair. Acho que a mais bem-sucedida é “De cair a chuva”, o primeiro conto, em que Polignano a Mare, na Itália, é parte importante da história.
Não podemos deixar de notar que os laços familiares são centrais nos seus contos. De que maneira a temática surgiu para você?
Acho que a família é uma instituição tão apaziguadora e reconfortante quanto, na mesma medida, é uma prisão. Me interessa escavar as pequenas fissuras que revelam traumas muito maiores, segredos escondidos durante anos, toda uma luminosidade ofuscada pelas aparências – pense no conto-título, por exemplo, que talvez seja o mais óbvio nesse sentido. O que eu gosto é de ir além da superfície, tirar os segredos do esconderijo, deixar que as relações humanas sejam mostradas por aquilo que são – humanas. Há raríssima humanidade nas instituições.
Em muitas histórias, há uma crise ou, no mínimo, um questionamento acerca do papel social ocupado pela personagem. Como foi tratar desses momentos?
Acho que veio de mim, no sentido de que comecei a questionar o que é uma sociedade, qual seria meu papel, por que eu necessariamente tinha que ser homem ou hétero ou sei lá o quê por causa de algo previamente atribuído. Essa crise, que está muito mais presente nas personagens mulheres, afinal sabemos de todo o peso do patriarcado ao longo dos séculos, também atinge os homens do livro – penso no Bruno, de “Mais alto que o mundo” e no motorista do último conto, “Antes que o sol”. A cidade que existe ali, ou melhor, a sociedade, é algo próxima da que temos hoje aqui fora, só que a vemos pelo interior de diversas perspectivas; e conversando com muitas amigas, é escandalosa a diferença de percepção sobre esse papel social em relação aos homens, que quando demonstram algum incômodo não parecem muito interessados em um grande esforço próprio para mudar. Eu queria mergulhar nessa inércia do confronto – quem está tentando fazer algo tendo que conviver com quem não quer fazer nada, e, por fora, quem nem sabe que pode fazer alguma coisa. Essa inquietação sob a areia movediça do tecido social me interessa muito.
Quais foram as principais leituras que te influenciaram na escrita de Formigas no paraíso e na sua formação enquanto escritor?
No “Formigas”, especificamente, a leitura de “Nove histórias”, do Salinger, na tradução do Caetano Galindo, me mostrou uma ideia de calma narrativa que mudou a forma como eu escrevia. Há uma coisa ali de pegar o leitor e levar para um passeio que se estende por dezenas de páginas que eu entendi como um caminho. Não no sentido de imitar ou até mesmo de me filiar a uma tradição, mas de buscar nos contos esse clima de romance de que falei, mesmo que seja uma história curta, tratá-la com dedicação. Em geral, acho que Rubem Fonseca, Luiz Alfredo Garcia-Roza e Roberto Bolaño, lá atrás, depois Elvira Vigna, Philip Roth, Raymond Chandler, Rachel Cusk e tantos autores brasileiros contemporâneos que leio com bastante atenção. Acho que mais do que influências, as leituras que fazemos, e de que gostamos, são referências. Possibilidades de caminhos a serem seguidos, e não algo que exprima uma filiação.
Você também atua como crítico. O que desta ocupação mais impactou na sua obra ficcional? Você considera que a crítica literária te tornou mais rigoroso quanto ao seu próprio trabalho?
A influência foi pouquíssima. Pelo menos no sentido de ser crítico, porque tanto o escritor quanto o crítico precisam ler bastante, de tudo. Acho que a leitura me deixou cada vez mais consciente da técnica. A crítica é uma consequência disso tanto quanto a ficção, só por caminhos diferentes. O importante é manter o rigor, o respeito com as obras e, no caso da ficção, com o leitor – o que não significa satisfazê-lo, apenas não subestimá-lo e deixar que corra junto com o texto, um se revelando ao outro enquanto o livro é lido.