A Bowl Of Fruit, Fantin-Latour

Laranja, peso, potência.

Que se finca, se apoia, delicadeza, fria abundância.

A matéria pensa. As madeiras,

incham, dão luz. Apuram tão leve açúcar,

tal golpe na língua. Espaço lunado onde a laranja

recebe soberania.

E por anéis de carne artesiana o ouro sobe à cabeça.

A ferida que a gente é: de mundo

e invenção. Laranja

assombrosamente. Doce demência, arrancada à monstruosa

inocência da terra. 

Herberto Hélder

Apesar de não ser a minha sobremesa preferida, o bolo de laranja da minha mãe é aquela que melhores recordações me traz: ver as gemas a desaparecerem na massa quais pequenos sóis que se diluem num céu de açúcar e farinha; mexer o preparado (com supervisão atenta para evitar que fosse mais massa para a boca do que para a forma); apoderar-me dos despejos…A parte do forno era a pior, mas sabia que a espera seria compensada, assim que metesse o primeiro pedaço escaldante de bolo na boca (“não comas o bolo quente, que faz mal à barriga”). O sabor ácido da laranja picava na boca, mas o melhor era o cheiro que ficava na casa: um cheiro pacífico, reconfortante que me fazia lembrar lençóis quentinhos e abraços…o cheiro do amor!

Agora é que não há bolos para ninguém, está tudo de dieta…