02
Abr15
Maria do Rosário Pedreira
Almeida Faria foi o autor homenageado este ano pela revista das Correntes d’Escritas, com vários artigos a ele dedicados por autores e estudiosos como Ana Luísa Amaral, Cristina Robalo Cordeiro, Hélia Correia, Isabel Pires de Lima ou Lídia Jorge. No seu discurso de agradecimento durante a sessão inaugural, o escritor contou uma história deliciosa. Quando se estreou na literatura aos 19 anos com Rumor Branco – uma obra considerada de grande modernidade e que gerou inclusivamente controvérsia entre os seus defensores e os seus detractores – vivia no Alentejo numa zona extremamente pobre e onde quase ninguém sabia ler. O romance – decerto muito pouco convencional para a época – não deve, pois, ter convocado a simpatia de muita gente por ali, talvez nem sequer a da mãe do escritor, que terá comentado a sua dificuldade com a criada analfabeta. Mas Almeida Faria passou, de qualquer modo, a ser considerado na sua terra uma pessoa importante e, tendo sido visto certo dia numa livraria, logo foi fotografado e objecto de uma notícia no jornal local, que referia detalhadamente as obras que tinha comprado. Ora, vendo a fotografia do rapaz no jornal aberto e inteirando-se do que ali se contava, parece que a criada analfabeta não esteve com meias medidas e lhe terá dito: “Pronto, agora, que o menino já tem esses livros todos, já pode copiar e fazer um livro como deve ser, com aventuras e tudo.”