04
Dez12
Maria do Rosário Pedreira
Publiquei recentemente um romance de Miguel Real com o título deste post, mas não é dele que pretendo falar aqui hoje. Há uns anos, quando estava na QuidNovi, comprámos os direitos de um romance (na verdade, tratava-se de um relato autobiográfico, e não exactamente de uma ficção, mas era «vendido» como romance) cujos direitos de adaptação ao cinema tinham sido adquiridos por uma grande produtora que prometia Johnny Depp no papel do protagonista (mas, que eu saiba, o projecto não foi avante). Ressuscitado agora por qualquer razão que desconheço, Shantaram, de Gregory David Roberts, voltou às livrarias com bastante destaque e tenho-o visto nas mãos de muitos leitores em esplanadas e salas de espera. Fazendo jus ao título de Miguel Real, este é o livro que define, efectivamente, o feitiço que a Índia exerce nos estrangeiros. O autor, um australiano em fuga de uma prisão de alta segurança depois de condenado pelos crimes de tráfico de armas, posse de droga e assalto à mão armada, viaja com um passaporte falso para Bombaim onde, depois de um encontro com um guia turístico, o inesquecível Prabaker, e muitas outras personagens que contribuem para o tal encanto da Índia, se torna um homem completamente diferente – generoso, altruísta, merecedor do nome Shantaram, que significa «homem de paz». Mas não se pense que o livro é uma dessas obras melosas de autoconhecimento ou armada em exemplo moralista para os leitores. Nele, a Índia é retratada no seu melhor e no seu pior, e não faltam descrições dos bairros miseráveis e nauseabundos de Bombaim, das ruas imundas cheias de cães esfomeados que atacam de noite, das aldeias de um atraso indizível onde se morre de fome mas as vacas engordam. Um relato realista, pungente e, às vezes, hilariante faz deste livro um autêntico feitiço, pois, quando se começa a ler, já não se consegue largar.