Andava eu a pensar nestes pormenores quando decidi escrever seis contos sem autor, seis histórias isoladas, diferentes, órfãs de autor e de referências, e deixar livres no mundo. Qual seria a sensação inicial dos futuros leitores que o azar escolheria para descobrir essas novas experiências literárias? Ficariam com eles ou deixariam também voar à procura de novos leitores? Tentariam procurar o autor? Sem dúvida apareceriam novas histórias em cada uma das leituras, mas isso, só vamos poder imaginar.
Estava decidido, comecei a escrever os contos com uma ilusão e vontade desconhecida. As palavras apareciam como por arte de magia, certamente precisavam de sair rapidamente da minha cabeça. Escrevi, escrevi sem parar até conseguir os textos. Finalmente, apenas uma impressão simples em formato A5 para facilitar o uso e uma capa preta para os proteger. Agora só faltava que aparecessem os leitores. Encontraria seis leitores dispostos a ler um conto desconhecido? Chegou a hora de os procurar.
Minha primeira decisão foi ir até um parque. Deixei o primeiro conto num banco. O dia estava soleado, podia esperar pacientemente a chegada de algúm reformado à passear, um estudante, uns namorados... Fiquei à espera num banco cercano. Estava ansioso por descobrir quem levaria o texto. Passaram várias pessoas, ninguém reparava ele, ninguém parava. De repente apareceu um homem com fato preto e pasta de couro na mão. Na outra mão levava um telemóvel, estava a falar alto e depressa, um bocado angustiado. Sentou no banco, continuou a falar bastante tempo, cada vez mais e mais alto. Com certeza estava a discutir com outra pessoa, o seu chefe? A sua mulher? O filho? A amante? Por fim acabou a conversa. Levou uma mão à frente, estava mesmo disgustado. Reparou no livro, olhou-o com desconfiança, empurrou com um dedo e finalmente apanhou-o. Começou a ler. Levantou a mirada, se calhar procurando o dono. Passou a primeira página, continuava a leitura. De repente o telemóvel começou a soar. Meteu o conto na pasta, atendeu a chamada e foi-se embora. Trabalho feito, o primeiro conto já tinha leitor, o broker angustiado.
O segundo conto deixei na sala de espera das urgências num centro de saúde. Haveria muitas pessoas à espera de notícias, com muito tempo disponível e sem nada a fazer. Se calhar um livrinho podia ajudar a passar o tempo de espera. A primeira pessoa que reparou nele foi uma rapariga de uns trinta anos, muito atrativa e vestida completamente de cor vermelha. Parecia voltar de uma festa ou celebração. Depois de ficar um tempo a olhar para o chão, se calhar tentando digerir as notícias que acabava de receber, deu conta do livro e começou a ler. Desta vez foi rápido. Levaria o conto para casa ou deixaria ali para outras pessoas? Apareceu uma enfermeira a procurá-la. Levantou-se e levou o livro no bolso também vermelho. Mais um, levou a rapariga do fato vermelho.
O terceiro ficou num banco da Faculdade de Letras. Algum curioso estudante repararia nele e levaria para ler, analisar, avaliar, até como pretexto para escrever um outro texto ou trabalho nas aulas. Estive à espera muito tempo, mais de uma hora. Reparei que quase todos os estudantes levavam o seu telemóvel na mão e apenas retiravam a vista dele. Quatro estudantes sentaram no banco e ninguém deu conta do livro. Já estava preocupado, será que no centro da cultura da cidade o meu texto ficaría esquecido? Nesse momento apareceu um homem com fato de trabalho cor verde e branco. Devia ser electricista, andava à procura de um cabo ou alguma caixa de coneixões. Reparou no livro, abriu a primeira página e guardou. Continuou a fazer o seu trabalho, seguramente leria com calma no intervalo do almoço ou na sua casa. Era o meu electricista leitor.
Decidi apanhar um autocarro. Subi, paguei o bilhete e deixei o quarto conto num assento quase na metade do veículo. Fiquei sentado na fila a seguir para espreitar o resultado. Foi rápido, na seguinte parada subiu um velhote com muita dificuldade para mover-se. Sentou no assento contíguo e apanhou o conto, seguramente pensou que alguém o tinha esquecido. Olhou para mim, perguntou se era meu. Respondi que não e fiz um gesto com as mãos abertas. Ficou com ele e começou a ler. Desta vez decidi continuar a viagem e comprovar as suas reações na leitura. Começou a rir, o homem teve muita sorte, era o texto mais satírico dos que tinha escrito. Fiquei muito contente, e acho que ele ainda muito mais. Demorei mais duas paradas até baixar do autocarro, e lá deixei a continuar o trajeto o meu avozinho contente.
Era hora de tomar um café e repor forças. Entrei numa cafeteria e reparei numa estátua de um escritor famoso mesmo à entrada do local. Logo decidi que era o lugar adequado para deixar o quinto conto. Alguém até poderia pensar que era um texto vindo do outro mundo que enviava o escritor para surpreender os seus amadores. Apareceu um casal de namorados. Sentaram, encomendaram umas cervejas e continuaram a falar com as mãos juntas e algum beijo furtivo. Passado um tempo olharam para a estátua e decidiram imortalizar o momento com uma fotografia. Surpresa! Temos um livro para completar o quadro!Tiraram várias selfies com a estátua e o meu conto. Em poucos segundos estaria subido no Instagram. A rapariga começou a ler, gostou do início porque esboçou um leve sorriso. Guardou no seu bolso, era a leitora namorada.
Só faltava um para completar o meu experimento. Sai do café, estaba mesmo na praça da cidade. Muitas e variadas pessoas a transitar por ela. Deixei o sexto conto na base de um poste de luz, bem visível e disponível para qualquer pessoa. Fiquei à espera pacientemente. Passaram centos de pessoas, quase poderia dizer miles de caminhantes e ninguém levava. Alguma pessoa olhou para ele, como se fosse um objeto perdido à espera do dono. Até passou um polícia. Apanhou-o, olhou em redor e finalmente deixou no mesmo sitio. Eu estava mesmo desesperado. Mas isto não é um objeto perdido meu deus! Isto é um conto à procura de um leitor! Ou de um autor? Estava a perder o tempo... ou não, será que o conto realmente estava... à minha espera? Aproximei lentamente, apanhei o livro, abri a capa e comecei a ler: “Sou um defensor extremo da liberdade...”
O autor desconhecido

