A chuvinha parece inofensiva, quase uma névoa a misturar-se com os néons e a deixar um cor-de-laranja difuso sobre as cabeças dos passantes. Não é inofensiva e uma flor de estufa a passar tanto tempo na rua acaba por ressentir-se. Ao Long Tong é o nome do chá medicinal que me recomendam. Na casa dos chás, faço a minha melhor pronúncia, mas ainda assim aponto para a garganta, não vá o resto não chegar. A senhora da farmácia também faz a sua melhor pronúncia, mas em inglês, e vai avisando que o chá é amargo. É amargo, mas não insuportável. Dois dias sem comer doces nem picante, diz ela. Os doces ainda vá, mas o picante é que não, penso eu. A caminho de casa, entro em todos os estabelecimentos de comida para saber se têm congee, depois de descobrir que congee se diz zhou (粥). Numa tasquinha do Patane, a senhora que me atende diz que não tem. Fico orgulhosa como uma criança, por ter conseguido perguntar tudo isto em chinês e por ter percebido a resposta. 你有粥吗? Digo eu. 没有。Diz ela. O orgulho linguístico não dura muito, claro, e quando a senhora começa a dizer mais coisas tenho de fazer aquela cara universal de quem não percebe nada. Ela gesticula, mandando-me virar à esquerda e andar. Eu obedeço. Encontro um estabelecimento só de congee. Regresso a casa preparada para uma noite sossegada que afaste os efeitos da chuva inofensiva.
Chá amargo, mas não muito
Texto originalmente publicado em Cadeirão Voltaire
