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Jul10

Maria do Rosário Pedreira

Vi nascer a primeira Feira do Livro de Lisboa no Parque Eduardo VII, pelo que sou muito antiga. Tão antiga que ainda fui à feira na Avenida da Liberdade – e, garanto, mais do que uma vez. Foi, de resto, ainda nessa larga avenida de Lisboa que me estreei a comprar livros sozinha (quer dizer, sem a minha mãe, porque fui com uma amiga). Devia ter catorze ou quinze anos e lembro-me de ter comprado Os Novos Contos da Montanha, de Miguel Torga, e os Contos Exemplares, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Já não estávamos em tempo de aulas, mas admito que tivesse sido a escola a aconselhar estes títulos, talvez para os lermos no ano seguinte (embora eu já tivesse lido Os Contos da Montanha). Engraçado é que ainda hoje consigo eleger um conto de ambas as colectâneas: «A Viagem» (no livro de Sophia), que era um texto sufocante em que alguém empreendia uma viagem e, sempre que decidia voltar para trás, encontrava tudo diferente; e «Mariana» (no livro de Torga), que era a história de uma rapariga da aldeia que tinha filhos de vários homens e, quando a menina «selo branco da virgindade» regressava da cidade e lhe perguntava quem eram os pais das crianças, ela respondia apenas: «Saiba a menina que não têm pai… São só meus.» Histórias de liberdade com L.