Filme: Perdidos na noite (Midnight cowboy)
Diretor: John Schlesinger
País: Estados Unidos
Ano: 1969
Trilha sonora: Fred Neil e outros
Trailler: http://www.youtube.com/watch?v=jdie95qDtNw
Logo nos primeiros minutos você conhece Joe Buck. É um jovem de voz nasalada, o riso arrogante e imbecil dos narcisistas. Ele se banha e canta, depois veste sua fantasia de caubói e fala com o espelho. Joe Buck é John Voigt, que entendeu que não seria preciso fazer mais nada de genial em toda sua carreira. Já tinha feito, em um único filme, tudo o que um ator pode fazer.
Logo nos primeiros minutos você conhece Midnight cowboy, obra inconfundível, com uma fotografia impecável, ao mesmo tempo sóbria e vibrante; a entrada triunfal de Everybody’s talkin, música tema de Fred Neil, cantada por Harry Nilson, joga-nos definitivamente na atmosfera do filme.
Logo nos primeiros minutos você descobre o sonho de Buck, que está prestes a se realizar: abandonar de vez o poeirento Texas e partir para Nova Iorque, onde pretende devastar corações femininos com seu charme rústico. Logo nos primeiros minutos você pode mesmo odiar Joe Buck. Mas daquele jeito que a gente odeia os inocentes e os desmiolados: com alguma compaixão.
Então aparece Nova Iorque, a Nova Iorque turbulenta dos anos 70, cidade dançante, terra dos loucos, dos bêbados, dos desesperados, cenário da cultura underground, das drogas, da cultura lisérgica. A Nova Iorque de Midnight cowboy é uma cidade vibrante, mais uma personagem do filme.
Buck comerá o pão que o diabo amassou nessa cidade imensa. Mas não fará isso sozinho. Buck conhecerá Ratso. E quem é Ratso? Ratso é um mendigo, Ratso é um ladrãozinho: Ratso, claro, é um rato – sobrevive dos restos expelidos pela civilização. É divertido e espirituoso. É esperto e, embora manco, sempre ligeiro. Ratso é Dustin Hoffman, em atuação extraordinária.
Os passos claudicantes de Ratso conduzirão o incauto Buck pela Nova Iorque do submundo, buscando dar lições ao meninão ingênuo. (Consta que Dustin Hoffman colocou pedras dentro de seus sapatos para interpretar a personagem manca de modo mais convincente).
Esses dois seres tão contrários – o feio, pequeno, doente e esperto Ratso e o bonito, grandalhão, saudável e tolo Buck – unirão suas forças para tentar sobreviver numa cidade caótica e desumana, onde a solidão, a neurose e a injustiça se apresentam de modo intenso e irremediavelmente trágico. E onde o sonho de ascensão social constrói ruínas.
Filme amplamente premiado, Midnight cowboy, além de trilha sonora e fotografia marcantes, possui roteiro perfeito e apresenta um primoroso trabalho de câmera, com movimentos vertiginosos e envolventes que fazem nossos olhos saltarem de um ponto a outro dos espaços, de modo a contrastar a solidão dos indivíduos (em planos mais fechados) com a amplidão das multidões (em planos mais abertos).
Um dos meus grandes desejos é poder ver um dia esse filme na tela do cinema. (Quem souber onde/quando me avise. Por favor.)
Com sua linguagem vigorosa e trama envolvente, cujo final surpreende, Midnight cowboy é mais uma das muitas mostras de que o “sonho americano” tem consequências nefastas.




