08
Out10
Maria do Rosário Pedreira
Não sou especialmente impressionável – o sangue nunca me afligiu, mesmo em criança, e posso ouvir histórias realmente nojentas à mesa sem perder o apetite. Também raramente choro em filmes e livros (excepto se já estou deprimida), porque, mesmo que me identifique com alguém ou alguma coisa, nunca deixo de sentir que tudo aquilo é ficção. (O defeito é meu, claro, mas tenho de viver com ele, como com todos os outros.) Há, porém, algumas coisas que me comovem – e normalmente têm mais a ver com velhos do que com crianças (talvez por nunca ter sido mãe). Mas foi, curiosamente, por causa de uma cena com bebés que tive um dia de interromper a leitura de um livro, tal era o aperto na garganta e no estômago. O romance chamava-se As Cinzas de Ângela (deu, de resto, um filme terrível) e era construído a partir das memórias de um irlandês, Frank McCourt, que emigrara para os EUA. Ainda na Irlanda, a mãe do autor ia tendo filhos no meio de uma pobreza irremediável e, como não podia deixar de ser, ia-os perdendo quase ao mesmo ritmo a que nasciam. O problema maior (para mim, que me fui abaixo) foi quando a dita senhora teve um par de gémeos e um deles, dois anos depois, não resistiu à grande fome. A reacção do irmão que sobrevive à sua ausência, a procura constante da metade que se foi, é – garanto – demasiado pungente. Mesmo para gente que não se impressiona habitualmente…