
Rosa do Rio, ou Rosário Carneiro, como preferirem chamar-lhe, lançou em finais de Julho, com a chancela de uma editora norte-americana que se instalou recentemente em Portugal – chama-se Adelaide Books –, um livro intitulado Diários de 1992.
Sobre o conteúdo do livro falaremos em seguida, merecendo desde logo ser realçado o desvelo que foi colocado no projecto gráfico adoptado, na escolha do papel e nas seis ou sete ilustrações/desenhos da autora intercaladas com o texto, conferindo-lhe uma qualidade táctil e objectual suplementares.
Genericamente, os diários são um género literário muito particular que se distingue dos demais pela sua liberdade formal e estilística, uma vez que se destinam, em primeiro lugar, ao próprio sujeito que os redige e só depois aos leitores que, por qualquer motivo, apreciam ou admiram a pessoa que os escreveu. Há-os de todos os tipos; os de Anais Nin, por exemplo, são descritivos, narrando, supostamente com fidelidade, acontecimentos que terão realmente acontecido; já os de Miguel Torga, são poéticos e intimistas, desprovidos de quaisquer registos documentais e, até, o de Gertrude Stein, disfarçado sob a roupagem de biografia da escritora assinada por Alice B. Toklas, sua companheira, mas de facto redigido pelo próprio punho da escritora.
Este livro de Rosa do Rio denota na sua morfologia uma depuração e limpeza de linguagem de tal modo minuciosas que os acontecimentos sobre os quais pressentimos ter sido construído o texto esfumam-se muitas vezes num limbo poético, conformando categorias simbólicas universais, aplicáveis à generalidade da condição humana, tal como sucede com os relatos mitológicos.
retirado de Umbigo.